Foto: Ciciro Back/O Estado do Paraná

O amor aos livros vem do passado, mas nele não se congela. Nem no presente.

O historiador norte-americano Robert Darnton, em artigo de 2001 sobre o poder das bibliotecas, esclarece que seu intuito é tratar do ?futuro das publicações?, mas como a maioria dos historiadores tenta ?na verdade compreender algo sobre o futuro estudando o passado?, afirma: ?Nós, historiadores, somos o que os franceses chamam passéistes ou seja, estamos sempre voltados ao passado; e, à medida que nele ingressamos, de vez em quando batemos o olho no retrovisor e pensamos captar reclames do futuro. [pois] contemplando o passado, podemos aprender o bastante para moldar o futuro?.

Ao refletir sobre esse movimento da história, busquei no olhar retrospectivo encontrar alguns momentos pelos quais a leitura passou, como acontece na atualidade, por momentos de recusa e de busca de novos modos de ler. Não foi difícil encontrá-los e vou dividi-los com os leitores.

Em A história da leitura, de Alberto Manguel, aprendi que, apesar de Menandro, no século IV a.C. afirmar que ?aqueles que podem ler, vêem duas vezes melhor?, a leitura nem sempre foi considerada uma ação positiva. O receio de que a palavra escrita congelasse o sentido e o pensamento, de que o conhecimento de muitos escritos acabaria por perturbar o pensamento individual e particular, e outros conceitos mais.

Edouard Rouveyre, em sua obra Dos livros, publicada no Brasil pela editora Casa da Palavra, em 2003, faz uma longa reflexão, na contramão do discurso idealista a respeito dos efeitos da leitura. Apresenta as razões que circulam na sociedade francesa do século XIX, com a qual não concorda, embora registre. Vale a pena citar Rouveyre, que se confessa ?bibliófilo por amor?: ?alguns efeitos nocivos podem ser imputados aos livros: demandam a maior parte de nosso tempo livre e de nossa atenção, conduzem nossas idéias a assuntos que não dizem nada à utilidade pública, inspiram nosso desprazer pelas ações e pelo cotidiano da vida civil, tornam-nos preguiçosos e impedem-nos de usar o nosso talento inato e o nosso conhecimento, fornecendo-nos, a qualquer instante, os assuntos inventados por outros. Diz-se que os livros esmaecem nossa própria luz, impelindo-nos a ver através de olhares alheios, e que opiniões nefastas podem se valer desse meio para infectar o mundo com paganismo, superstição, corrupção dos costumes, que nos interessam bem mais do que as lições de sabedoria e de virtude. Podem-se aditar outros elementos sobre a inutilidade dos livros: os erros, as histórias fabulosas, as loucuras, a excessiva profusão. Há tal falta de exatidão em muitos conceitos, que se torna mais simples descobrir a verdade na natureza e a razão nas coisas, do que no emaranhado de incertezas e contradições de certos livros. Além disso, os livros negligenciaram os outros meios de se obter o conhecimento, como a observação direta e as experiências, sem as quais as ciências naturais não podem se desenvolver com êxito?.

Esse texto foi concluído em 26 de outubro de 1879. No espelho retrovisor da historiografia é possível descobrir nesse amontoado de razões anti-livros a justificativa para a destruição de bibliotecas (consultar urgentemente a História universal da destruição dos livros, de Fernando Báez) e uma série de argumentos a favor do analfabetismo funcional e da ojeriza pela leitura. A seqüência dos anos comprovou como falsos e mal-intencionados alguns desses argumentos, como a oposição entre ciência e leitura, por exemplo. Outros ainda hoje, e quem sabe até no futuro, continuem a serem usados, como o divórcio entre a vida civil e o tempo de leitura, bem como seu caráter de influência do pensamento alheio.

No espelho, no entanto, Darnton consegue ver ?reclames do futuro?: um livro eletrônico, como uma pirâmide, organizada em camadas. ?A camada superior poderá ser uma narrativa comum. As camadas seguintes seriam compostas de minimonografias que abordariam aspectos do tema que não se ajustassem facilmente a uma narrativa convencional. Embaixo delas haveria ainda outras camadas de transcrições de documentos, por exemplo. Mais embaixo ainda estaríamos ensaios historiográficos e metodológicos ou links para outras obras sobre temas correlatos, para bibliotecas inteiras. Você poderia ler um tal livro do modo comum, horizontalmente, (…) mas se topasse com um assunto que lhe interessasse, poderia ler verticalmente, entranhando-se cada vez mais fundo nas camadas inferiores ao clicar seu caminho pelos hiperlinks. E poderia então baixar e imprimir as partes que quisesse?.

A proposta desse livro eletrônico é de uma equipe de pesquisadores da American Historical Association, o que comprova a imagem inicial do próprio Darnton, um historiador que encontra no passadismo razões para avançar em direção ao futuro. O amor aos livros vem do passado, mas nele não se congela. Nem no presente. Rouveyre estava certo: são casos de paixão. Se a história tem a ver com espelhos, os livros são aparentados com os faróis. Aliás, a luz associa-se ao saber, como ensinou Marilena Chauí ao tratar do olhar. Nas trevas da situação histórica presente, talvez os livros pudessem ser a decisiva iluminação, que se mostra a cada dia mais escassa.