Quarenta por cento da população mundial já enfrentam escassez de água e 2,2 milhões de pessoas morrem a cada ano por beberem água contaminada; outras 3 milhões são mortas por causa da poluição provocada dentro de suas casas pela queima de lenha ou restos de colheita para cozinhar. A procura de alimentos está aumentando enquanto a produção deles diminui e metade dos grandes primatas, os animais mais próximos do homem, está à beira da extinção.

Com dados alarmantes como esses, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou hoje (13) um relatório salientando a necessidade de mais apoio ao desenvolvimento sustentável em todo o mundo para diminuir a destruição e manter a segurança da terra e seus habitantes.

Intitulado ?Desafio Global, Oportunidade Global?, o documento expõe questões sobre água, saneamento, energia, produtividade agrícola, biodiversidade e saúde, que serão debatidas na conferência de cúpula da ONU sobre desenvolvimento sustentável, em Johanesburgo, a partir do dia 26 e até 4 de setembro. A proposta da conferência é traçar um plano de aplicação mundial e formar parcerias entre países. Representantes de mais de 100 nações devem participar do encontro.

Ao apresentar o relatório hoje, na sede da ONU em Nova York, o chefe do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da organização, Nitin Desai, que será o secretário-geral da conferência na capital sul-africana, observou já haver acordo em cerca de 75% do plano, que vem sendo discutido desde janeiro. A fase mais difícil será enfrentada em Johanesburgo, nas negociações entre países ricos e em desenvolvimento. Embora a conferência não vá produzir nenhum tratado legal, Desai espera ?que os governos se comprometam em ações práticas de produção sustentável de energia, agricultura, uso de recursos de água para atender as necessidades das populações e erradicação da pobreza?.

Segundo o relatório, com as reservas subterrâneas de água sendo consumidas muito mais rapidamente do que podem ser repostas, dentro de duas décadas cerca de 3,5 bilhões de pessoas – metade da população do mundo – não terão acesso à água potável. Isso já ocorre com perto de um bilhão de pessoas, principalmente no Norte da África e na Ásia Ocidental. Nessas regiões e também na América do Norte, conforme prevê o documento da ONU, ?restam poucas esperanças de aumentar as terras dedicadas à agricultura?.

A produção de alimentos tem diminuído e, além de a população mundial não parar de crescer, ela também estaria comendo mais. Pelos dados do relatório, nos últimos anos o consumo diário médio por pessoa subiu de 3 mil para 3.400 calorias nos países industrializados e de 2.100 para 2.700 nos países em desenvolvimento.

Mas a fome tende a crescer justamente em lugares onde o solo tem sofrido degradação constante por exploração excessiva e desertificação. Tanto na África como na Ásia a freqüência e a intensidade das secas aumentaram por causa do efeito estufa, provocado pelo crescimento do consumo de combustíveis fósseis e emissões de carbono.

Além disso, no século 20 o consumo de água aumentou seis vezes  num ritmo duas vezes maior que o do crescimento demográfico. A agricultura é responsável por 70% desse uso e pelo maior índice de desperdício, pois sistemas ineficientes de irrigação perdem 60% da água que transportam.

A desertificação que compromete a produção de comida é acelerada pelo desmatamento: estima-se que 90 milhões de hectares de florestas – área maior que a Venezuela – foram destruídos nos anos 90. Essa é uma das ameaças mais graves contra a biodiversidade, pois as florestas abrigam dois terços da vida terrestre.