O resgate da utopia

Senhores candidatos, por favor, tenham pena de nós. Não abusem de nossa paciência, nem se esforcem para nos fazer de otários. Não prometam aquilo que não poderão cumprir. Não exagerem nas promessas. Afinal de contas, quem promete o céu sem ensinar o caminho, pode acabar caindo nas garras do inferno. Não dá para acreditar na criação de 10 milhões de empregos, em um país que depois de 500 anos de vida, conseguiu formar apenas 28 milhões de empregos formais. É praticamente impossível construir 6 milhões de casas populares, em quatro anos, o que demandaria a fabulosa soma de R$ 93 bilhões. E essa idéia de parlamentarizar o presidencialismo, dando ao Legislativo e ao Executivo, poderes para dissolver o Congresso, toda vez que se impuser uma séria crise, é maluquice. Conseguir 3/5 de deputados e senadores para tal façanha é querer acreditar que os parlamentares apreciam muito a arte do suicídio coletivo.

As três promessas, respectivamente, de Lula, Serra e Ciro, podem até guardar boas intenções, mas não resistem a uma análise mais rigorosa. Na verdade, parecem factóides para chamar a atenção do público e disputar visibilidade para as campanhas. Na verdade, os candidatos precisam assumir sua verdadeira identidade: Lula, a de um oposicionista ferrenho, que quer mudar o modelo econômico e rediscutir os compromissos internacionais do Brasil; Ciro, a de um oposicionista cáustico, com meia plumagem tucana, que cita densos números, às vezes sem conferí-los; Serra, a de um situacionista que precisa colar a imagem no Governo, sem medo de defende-lo e Garotinho, a de um franco atirador populista, que usa o manto evangélico para se cobrir. Não é preciso ir longe para se saber o que a sociedade quer. Basta captar o senso comum, que está a um palmo dos nossos sentidos.

Queremos, sim, que a moeda continue sendo forte, garantindo a estabilidade da economia. E que isso seja feito de modo a não criar atropelos, calotes, percalços e sustos em nossas precárias reservas. O país que todos desejam deveria oferecer muitas possibilidades de empregos, sem restrição de idade e classe, diminuindo as angústias das milhares de famílias desempregadas. Sabemos que isso implica plena carga na produção, com o incentivo aos setores da economia que se encontram semi paralisados ou desmotivados. Que se baixem os juros e se diminuam os impostos, fazendo-se com que mais gente pague, mas pague menos.

Queremos, sim, segurança, mas um sistema preventivo e ostensivo que se faça respeitar pela força da autoridade, pela disposição dos efetivos motivados e pela certeza de que os criminosos serão condenados e submetidos aos rigores da lei. Ao contrário, longe de nós a segurança que causa insegurança, pela ação maléfica e contaminada de quadros policiais mancomunados com as gangues.

Queremos, sim, uma educação forte de base, com todas as crianças em escolas aparelhadas, recebendo lições de cultura e vida, sem medo das infiltrações das drogas. Os nossos professores, motivados, com salários decentes, seriam respeitados como os guias espirituais de uma sociedade destinada a um grande destino.

Exigimos, sim, um sistema de saúde, onde os estabelecimentos limpos e aparelhados afastem por completo o medo da infecção hospitalar. Mais: que os profissionais, preparados e acolhedores, em quantidade adequada, não nos façam esperar em filas quilométricas. E que o processo de cura seja facilitado por remédios baratos e à disposição de todas as classes sociais. Defendemos, sim, que os profissionais liberais de nosso país reencontrem a satisfação no trabalho, cobrando justos preços, atendendo de maneira exemplar os seus clientes, irmanando-se ao ideal da solidariedade e do humanismo.

Queremos, sim, que haja menos burocracia na administração governamental, menos regulamentos, melhores e mais ágeis serviços, aproximando-se a esfera pública do cotidiano dos cidadãos. É claro que o anseio nacional é por melhor justiça, que significa mais agilidade nos processos, imparcialidade nas decisões e rigoroso cumprimento da lei. Precisamos carregar em nossos corações a certeza de que, em nosso país, a lei é para todos, sem distinção de cor, raça e gênero.

A ordem, o respeito, a autoridade, a disciplina, o zelo são valores intrínsecos ao escopo institucional. Infelizmente, estão sendo atropelados pela irresponsabilidade de maus administradores, corruptos e apaniguados. Urge resgatá-los a fim de se poder reconquistar a crença dos cidadãos nos símbolos da Nação.

Olhar olho no olho, sem temer a verdade; enfrentar as situações com disposição; jogar aberto, não tergiversar; assumir o sentido da autoridade; fazer cumprir a lei; punir os culpados; exercer com altanaria as altas funções públicas, são esses alguns preceitos que o país quer ver aplicados. Para respeitar, o cidadão quer ser respeitado; para assumir responsabilidades, quer ver exemplos dignificantes de cima. No fundo, o que ele quer é ver replantada a semente de suas mais altas esperanças, resgatando as velhas utopias.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail:

gautorq@gtmarketing.com.br

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