O presidente Lula colocou o chapéu de gaúcho do lado errado afirmando, na cidade de Esteio, no Rio Grande do Sul, que a decisão do governo deverá chegar na hora certa. E será ditada exclusivamente por razões científicas. Falava dos transgênicos – produtos geneticamente modificados, cujo plantio, comercialização e consumo tanta polêmica tem gerado até aqui, à direita e à esquerda. A promessa do presidente não passa disso, mas o clima é bem diverso daquele visto num passado recente, quando Lula participou de ato em que um ativista francês chamado Bové erradicou simbolicamente uma plantação de soja modificada no mesmo Rio Grande do Sul.
Desde então, a ideologia queima um debate que deveria ser pautado por razões ditadas pela ciência. Um juiz singular decidiu condenar o resultado de anos de pesquisa, o que os estudiosos do mundo inteiro não arriscam confirmar, e com base nessa decisão o governo, arrepiado, tomou alguns passos equivocados. Na última safra, o governo federal permitiu a colheita e a comercialização da soja transgênica sob a censura de ativistas que se misturam com integrantes do movimento dos sem-terra e que, no Paraná, invadiram fazendas onde uma empresa multinacional desenvolve pesquisas. O PT quase transgênico de Lula está em rota de colisão com as alas mais obtusas do partido, que sempre avalizaram – e promoveram – o grito de “fora transgênicos”.
A verdade é que, aos poucos, Lula está descobrindo que as coisas nem sempre são como parecem. “Existe uma lei -errou o presidente, referindo-se provavelmente à decisão judicial adotada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – que não foi feita por mim, que proíbe os transgênicos e nós vamos ter que resolver esse problema.” Advertiu que isso não poderá acontecer em clima de paixão. “Não vamos discutir esse assunto com o grito dos que são a favor ou dos que são contra; teremos uma diretriz única, com base científica, para todo o território nacional”, garantiu. Essa diretriz, conforme prometeu, será traçada a partir de projeto de lei a ser encaminhado ao Congresso Nacional que, em última análise, definirá uma política nacional para o setor. Nem tão científica (para isso bastaria adotar o veredito da Real Academia de Ciências, da Inglaterra) quanto imagina o presidente.
Outra verdade é que as sementes têm data e lua certa para germinar. E depois de lançadas ao solo, não esperam pela boa ou má vontade política… “Sou PT e sou transgênico”, diziam algumas faixas carregadas por agricultores manifestantes de Esteio. Os dados divulgados na feira Expointer dão conta de que, na prática, a decisão já está tomada, como um caminho sem volta, pela maioria dos produtores: pelo menos 80% da soja produzida em território gaúcho é transgênica e envolve tanto grandes fazendeiros como pequenos colonos que, por razões diversas, defendem a legalização do plantio, colheita e comercialização do produto. E que não querem ser atrapalhados na próxima safra, cujo plantio começa dentro de menos de um mês. Situação não muito diversa acontece no resto do País, que, em cinco anos, aumentou em 43% a área plantada para um salto de 66% na produção desses grãos. Isso leva à conclusão que outra vez haverá problemas e, outra vez, o governo terá que atropelar sua formulação política de longo alcance.
Pressão por uma decisão imediata vem também do Fórum Nacional dos Secretários de Agricultura, realizado dias atrás em Belo Horizonte. “Planta-se muito transgênico ilegalmente no País – observaram os secretários – e isso tem de ser legalizado.” Trabalhando na clandestinidade, exércitos de colheitadeiras, financiadas com recursos do governo, que tarda na tomada de decisão correm o risco da inadimplência. É preciso dar um rumo também a essa nau.


