Mesmo que não seja intencional, a realidade é que os governantes candidatos à reeleição acabam fazendo campanha com os recursos do povo. Tal acontece porque o que apresentam como créditos para serem mantidos no poder é o que já fizeram e vêm fazendo ou planejam como governadores ou presidente da República. Já os demais candidatos, que não têm esses cargos, vão à campanha com dinheiro próprio, arrecadado, mesmo que de forma ilegal, e apresentam idéias, projetos, quimeras, buscando convencer o povo de que farão, se eleitos, o que consta de seu estoque de promessas.
A reelegibilidade dos governantes parecia uma medida boa, pois dava aos governantes oportunidade de, em mais um mandato, terminar obras que obrigatoriamente são de longa duração. Ou completar suas promessas exageradas, quilométricas, nunca cumpridas ao longo de quatro anos de governo. E, na prática, nem em dois mandatos, oito anos no poder. Os fatos demonstraram que a reeleição, entre outros inconvenientes, revela num segundo mandato o esgotamento da garra de governar. Quase sempre os reeleitos, mesmo que tenham feito um bom primeiro governo, oferecem num segundo mandato gestões muito inferiores, medíocres.
Na semana passada, a Justiça Eleitoral proibiu campanhas institucionais dos governos de Minas Gerais e Paraná, onde são candidatos Aécio Neves, governador do PSDB, e Roberto Requião, do PMDB. A decisão que levou à proibição foi a constatação de que tais propagandas mostravam obras dos respectivos governos e serviam como propaganda à reeleição. Logo se argumentou que, no plano federal, Lula também faz campanha beneficiando-se com a divulgação de obras, planos e projetos do seu atual governo e até mesmo de seus antecessores. Em todos esses casos e em outros que com certeza existem, mas não foram levantados, é evidente que quem pagou tais feitos governamentais e sua propaganda foi o povo. Que está havendo financiamento público de campanhas em favor somente dos candidatos à reeleição.
É certo que esse defeito grave nas campanhas à reeleição é difícil, senão impossível, de ser corrigido. Não há como exigir de um governante que pleiteia mais um mandato deixar de falar e mostrar o que fez no governo que está exercendo. Há casos de má-fé, mas existem candidatos à reeleição que usam, dessa forma, o dinheiro do povo em suas campanhas sem intenção de engodar o eleitorado.
Mas o problema existe e faz-se urgente a sua correção. Provisória e parcial, com as proibições que começam a surgir na Justiça Eleitoral. E definitiva, abraçando a tese, que hoje ganha corpo até entre os candidatos à reeleição, de que a reelegibilidade deve ser abolida. Os governantes que desejarem, na eleição que estiver se aproximando, candidatar-se a algum cargo, terão de se desincompatibilizar num prazo razoável. E outros simplesmente não irão ser candidatos a continuar no cargo. Terão de ficar de fora por mais um período de mandato e, depois, apresentar-se à escolha do eleitorado, sem privilégios, conseguindo como todos e de forma honesta os recursos de suas campanhas.
Este é o caminho correto, principalmente num país como o Brasil, em que em matéria de política vale tudo. Principalmente o exercício da desonestidade.


