Num País onde os vice-presidentes têm tido chances de exercer a presidência por longos períodos (casos de José Sarney e Itamar Franco), assume corpo o debate sobre o papel que devem desempenhar no governo os que ocupam esse posto subalterno. E tudo porque o atual vice, José Alencar, resolveu dizer o que pensa e o que pensam seus colegas empresários a respeito da política econômica adotada pelo governo que ajudou a eleger.

O episódio está indo mais longe do que se supunha inicialmente. O vice, segundo dizem em Brasília, é um poço de mágoas com o governo. “Se não precisam de mim para nada -teria dito Alencar -, estou liberado para dar opinião sobre qualquer assunto.” Aliás, como foi dito pelos próceres do governo aos radicais do PT: falar pode, é livre a manifestação do pensamento; o que não pode é votar contra. No caso, vice, não vota; e não pode falar também. Não, pelo menos, para contrariar. Pelo menos é isso que está sendo desenhado nos horizontes já nebulosos de Brasília.

Dizendo que não pretende mudar suas convicções pessoais, Alencar continua disparando contra a política dos juros altos defendida pelo ministro Antônio Palocci. Diz ter a convicção de que é o avalista da classe empresarial no apoio ao então candidato Lula e, portanto, em nome dela pode falar à vontade. Para desmerecer-lhe a ação, deixaram escapar para a imprensa que dias atrás, quando foi ter com Palocci, levava debaixo do braço o balanço de uma de suas empresas, como a sugerir que estava agindo em causa própria. Magoou. Um de seus interlocutores, o senador Paulo Paim, também foi atirado no limbo depois de participar do colóquio antijuros enquanto Lula viajava pela Europa. O ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, simplesmente não lhe abriu a porta do gabinete numa audiência previamente agendada. Dizem que a mando do ministro José Dirceu, o do cavalo-de-pau. As retaliações já estariam alcançando inclusive o ministro dos Transportes, Anderson Adauto.

No meio dessas atitudes que se parecem com coisas de piá pançudo, vem o presidente do Senado, José Sarney, para trazer sua experiência de vice (que jamais exerceu) à baila. E também recrimina o liberal José Alencar: o vice deve ser um homem aliado do presidente e, sobretudo, do País. Mas quem disse que Alencar é adversário do Brasil e do governo?

Condenando o comportamento de Alencar, Sarney acha que o cargo de vice impõe algumas restrições que foram ignoradas. O presidente do Senado acha que as opiniões e as justificativas de Alencar podem promover a instabilidade no País. Muito estranho. Mais que a falta de segurança da população, que já chega à casa de ministros e graduados agentes do próprio governo? Mais que o descumprimento de promessas de campanha, que despertaram a esperança ante as promessas de promoção do crescimento econômico, da geração de empregos, de um basta à especulação?

Ainda bem que Sarney também se declara favorável à queda dos juros. Pois caso contrário estaríamos pensando que, de fato, a insensibilidade tomou conta do Planalto inteiro e os que lá estão só pensam naquilo. Isto é, usufruir das benesses do poder sem dar a mínima atenção aos clamores populares. Ora, há algo de errado no papel de um vice-presidente semelhante ao de qualquer cidadão livre e consciente de sua cidadania? Se tem coisa errada, é melhor que ele fale. Pois não é boneco, nem fantoche. O que pode estar redondamente errado é essa mania de querer enquadrar todo mundo que pensa diferente e tem a coragem de dizer o que pensa.

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