O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, foi tido, desde o início da administração Lula, como o homem forte do governo. E era, até que se descobriu que, inadvertidamente, introduziu no Planalto um amigo dedicado a extorsões e negociatas com chefes da jogatina. Dirceu foi logo satanizado.

O episódio comprometeu sobremaneira o prestígio do homem forte de Lula, atiçando contra ele oposicionistas e governistas que sonham escapar de sua influência e, muitas vezes, desmedida autoridade. Lula nomeou-o uma espécie de gerente-geral do ministério, coordenador, primeiro-ministro informal ou chefe do primeiro escalão. Seria poder demais.

José Dirceu não desapareceu, mas passou a agir discretamente, enquanto não amainava a tempestade que acabou se transformando numa desgastante crise governamental. Agora, ressurge com uma proposta de pacto nacional, causando mal-estar na equipe econômica do governo e no Palácio do Planalto. O chefe da Casa Civil, em encontro com empresários, falou em instituir-se um pacto nacional para enfrentar a crise que atinge o Brasil, por conta das turbulências financeiras e políticas internacionais. Por sua assessoria, Dirceu negou ter criticado a política econômica do governo ou insinuado que ela não está dando conta do recado. “Falei no sentido de a política ajudar a economia a superar os problemas, aprovando, por exemplo, a nova Lei de Falências no Congresso e o projeto PPPs (Parcerias Público-Privadas). E disse aos empresários que deveriam acreditar no Brasil e investir”, afirmou José Dirceu.

É certo que na equipe governamental há queixas e muita ciumeira em relação ao ministro-chefe da Casa Civil. Também que a oposição desejou e trabalhou para comprometê-lo com o episódio do achaque feito por seu amigo Waldomiro Diniz, auxiliar e até ex-colega de apartamento.

Mas a revolta contra sua proposta de pacto nacional objetiva tentar satanizá-lo. Um pacto de grandes dimensões é politicamente difícil, senão impossível. Mas desejável, já que a conjuntura política e econômica internacional não colabora para a melhoria da situação do Brasil. E o nosso País passa por uma fase de grandes dificuldades. A alta do dólar aumenta o nosso endividamento. O petróleo bate preços recordes e ainda não sabemos como enfrentar o problema. A notícia de que a indústria dá sinais claros de crescimento é anulada pela pesquisa do IBGE que demonstra que o nível de emprego cresceu apenas 0,4% em março e permanece em queda, no acumulado dos últimos 12 meses.

Há possibilidades de os Estados Unidos elevarem suas taxas de juros, desviando do Brasil os já parcos investimentos que estamos conseguindo com a oferta de juros altíssimos. A China dá sinais de mudanças em sua política de desenvolvimento, retraindo-se, e, em relação ao Brasil, acaba de restringir a importação da nossa soja.

O episódio do artigo do jornalista norte-americano sobre suposto alcoolismo de Lula e o erro da expulsão do referido profissional, felizmente já corrigido, não colaborou para melhorar a imagem do nosso País no exterior. E a guerra entre muçulmanos e cristãos, deste lado sob a liderança insensata de Bush, continua sangrenta e sem saída à vista. Isso tudo é mais do que motivo para um pacto nacional de defesa dos nossos interesses e projeção de uma imagem mais sólida do Brasil. José Dirceu tem razão. O problema é que não tem mais prestígio para conseguir o que propõe, aliás, um projeto quase impossível.