São vários os foros onde os políticos corruptos e pessoas com eles envolvidas podem ser julgados. Condenados, até agora nenhum. Eles podem ser objeto de processos na Comissão de Ética da Câmara, no plenário, em colegiados semelhantes no Senado, na Justiça, desde que lhes dêem foro privilegiado, uma garantia de que terão tratamento ?vip?, os processos se arrastarão por anos e anos e acabarão em pizza. Ainda há os bloqueios que são estabelecidos pelo espírito corporativo. Corvo não come corvo nem deixa que comam. Essa impunidade é revoltante. Sabemos que estamos sendo tapeados, roubados, espezinhados. Que nos cargos públicos aos quais foram alçados, políticos fazem negociatas vergonhosas com dinheiro direta ou indiretamente do povo. E tanto se ocupam de praticar a corrupção que nem têm tempo, e muito menos vontade, de exercer seus cargos, atuando na feitura de leis ou desenvolvendo ações que são de sua obrigação e de interesse da nação.

Como consolo, sempre se disse que a criminosa benevolência que absolvia os envolvidos nos dois maiores escândalos do primeiro mandato do governo Lula, o caso Waldomiro Diniz e o mensalão, acabariam numa punição pelo menos nas urnas. Os parlamentares envolvidos, quando se candidatassem em novas eleições, seriam repudiados pelo eleitorado. Assim não aconteceu, porque há uma parcela muito grande do nosso povo que é tapeada ou condescendente. Ou não acredita que seus candidatos sejam capazes de praticar tanta sujeira. Além disso, boa parte do lixo é varrida para baixo dos tapetes que forram os palácios do poder.

Houve alguns casos raros, porém significativos, de rejeição expressa do eleitorado aos que praticaram maracutaias. E houve também os que renunciaram para não serem cassados, o que seria pouco provável, e assim mantiveram o direito de voltar a se candidatar. Muitos conseguiram a reeleição.

Só agora surgem as primeiras punições às pessoas físicas e jurídicas envolvidas naqueles escândalos. E não vêm de nenhum dos órgãos referidos ou do Poder Judiciário, mas da Receita Federal. O Leão, que tem sido implacável até com gente poderosa, começou a cobrar R$ 268 milhões de envolvidos nos casos Waldomiro Diniz e mensalão. Parece óbvio, pela importância que está sendo cobrada, que o Fisco ainda não chegou aos números totais e a todos os malandros. O cobrável está muito aquém do que foi surrupiado. Mas as autuações já estão sendo entregues. Entre as maiores cobranças até agora feitas estão a de Rogério Buratti (R$ 4 milhões) e do presidente do então PL, hoje PR, Waldemar Costa Neto (R$ 400 mil).

Buratti é amigo do ex-ministro da Fazenda e hoje deputado federal Antônio Palocci (PT-SP). É investigado sob a acusação de ter intermediado, em 2003, a renovação de um contrato de R$ 700 milhões da Caixa Econômica Federal com a multinacional GTech para gerenciamento das loterias. Waldomiro Diniz, que foi subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, é acusado por diretores da GTech de tentar extorquir dinheiro da empresa. Costa Neto é acusado de ter sido elo entre o PL e o esquema do mensalão. Renunciou ao mandato e acabou sendo reeleito. É de novo deputado federal.

Existem ainda outras 58 ações fiscais em curso por razões semelhantes. Mas em favor dos devedores há o direito de questionamento da importância cobrada com recursos administrativos. De qualquer forma, é um começo e a opinião pública deve acompanhar, o quanto possível, os passos do Leão. Talvez ele consiga morder algum desses esfomeados corruptos que comeram o dinheiro do povo.