Quando o presidente Lula fala da crise para uma parte da opinião pública parece que há sinais de que o seu governo ainda respira. Ele se escuda em dois argumentos: o primeiro, de que é de origem humilde, honesto e não cometeu imoralidades no governo. Como chefe do Executivo não pode punir, mas tudo fará para que a Justiça o faça. Aí, diz que serão punidos os inimigos e os companheiros, desde que provada sua culpa.

O segundo argumento é o sucesso da política econômica nesta quadra de sua administração. Um sucesso evidente, se comparados números de mês a mês, de um mês deste ano com outro de algum ano passado ou mesmo de administrações anteriores. Comparando-se com o desenvolvimento conseguido pelo mundo, em termos de crescimento do PIB; do desenvolvimento que precisamos para dar uma vida melhor ao nosso povo e os sucessos do Brasil com os das demais nações, inclusive subdesenvolvidas, temos uma posição constrangedora. Estamos crescendo menos do que cresce o mundo. Muito menos do que necessitamos para acabar com a miséria crônica da metade dos brasileiros. E os méritos do relativo crescimento o governo tem de dividi-los com a conjuntura internacional, com a ação do empresariado, independentemente do governo e até em contrário às suas políticas, em especial a de juros altos. E com providências de administrações anteriores, como disse o próprio ministro Antônio Palocci Filho.

São argumentos para confranger as massas mais humildes e dar algum alento aos que esperam algum arejamento na economia. Mas desagradam aos que acreditavam no governo Lula do PT socialista, de esquerda, contrário às políticas do Fundo Monetário Internacional e ao chamado capitalismo selvagem. Desagradam ainda aos empresários capitalistas nacionais, que reclamam de altos impostos e juros elevadíssimos.

Lula havia conseguido, até há pouco, um verdadeiro milagre. Mantinha confiantes, ou pelo menos condescendentes, os que o acompanharam na jornada rumo à Presidência da República acreditando que um dia, depois de encerrado o constrangimento da dívida externa, voltasse às suas raízes ideológicas socialistas. Dentre estes estava Frei Betto, o sacerdote assessor do presidente e uma das vozes mais respeitadas da esquerda da Igreja.

Pois Frei Betto acaba de publicar longo e fundamentado artigo, iniciando por referir-se ao ?Grito?, um quadro expressionista de Munch em que aparece, atravessando uma ponte, uma mulher gritando desesperada. E aí está a indagação: para que ouvidos moucos vão gritar os excluídos, se Lula e o PT sonegaram tanto a política social prometida como a administração ética a que se comprometeram?

No 11.º Grito dos Excluídos, em Aparecida, um movimento da Igreja Católica voltado à redenção dos pobres e, por isso, sempre simpático à política anunciada por Lula, João Pedro Stédile, principal líder do MST e amigo do presidente, afirmou: ?O governo acabou?, e se disse ?constrangido? com a atuação de Lula. Acrescentou que o governo em que votaram em 2002 não mais existe. Lula está com Severino, Calheiros, Sarney, enfim, aliado aos que considerava inimigos. E enquanto a CNBB também questiona a gestão Lula, internamente esboroa-se o PT e caem, um a um, os auxiliares mais próximos do presidente no governo. Parece que caminha mesmo para o fim.