O PPS faz parte do governo Lula e até ocupa o Ministério da Integração Nacional com Ciro Gomes. O político cearense e seu partido apoiaram Lula no segundo turno. Isto valeu a Ciro, por enquanto, uma barba que pouco combina com sua cara, mas está na moda petista. E um ministério sem verbas, o que não provocou, até agora, nenhum protesto ou resmungo. Ciro, durante a campanha, ganhou fama de bronqueiro. Nos meios políticos comenta-se que Ciro está silente, sem estar contente, porque espera a queda de Antônio Palocci, ministro da Fazenda, com a esperança de vir a substituí-lo no cargo.

Já o presidente do PPS, que oficialmente faz parte das bases do governo Lula, decidiu soltar o verbo, produzindo um documento de quatorze páginas criticando o presidente e seu partido. Puxou o gatilho porque não teria as melhores relações com Lula desde que foi líder de FHC no Senado. E ainda porque não conseguiu indicar ninguém para o governo petista. Ciro não foi de sua indicação.

Roberto Freire é muito respeitado pela coerência de seu pensamento político. Foi, durante décadas, líder e parlamentar comunista. Com a implosão do comunismo no mundo, especialmente no Leste Europeu, decidiu fazer uma revisão, reconhecendo que o antigo Partido Comunista Brasileiro deveria modernizar-se, democratizar-se e aceitar o fracasso do sistema soviético para entrar num período de modernidade, como partido socialista democrático. Aí, fundou o PPS, que preside.

Livre e descontente, Roberto Freire diz, no seu extenso documento distribuído a três senadores e 21 deputados federais do PPS, que “um dos problemas da administração Lula não é a falta de projeto executivo de governo e, sim, a deficiência ou quase inexistência de sua componente estratégica”.

As críticas são ao governo e ao próprio Partido dos Trabalhadores: “Durante muitos anos na oposição, o PT, em virtude da força e da capacidade de militância e influência de suas tendências, não formulou um projeto de longo prazo para o Brasil. E está sendo obrigado a fazê-lo governando. Uma tarefa difícil”. Para o presidente do PPS, “projetos executivos só se tornam realmente viáveis se o partido vitorioso estiver amparado em um projeto estratégico de governo”. Mas faltaram ao PT as condições para elaborá-lo enquanto suas facções brigavam internamente nas décadas em que foi oposição.

Para Roberto Freire, esse projeto estratégico deveria ter sido “concebido bem antes das eleições”, com convergência interna e com participação de seus aliados, com rumo e sem grandes contradições. O documento do presidente do PPS comenta as diferenças entre as posições e atuação do partido de Roberto Freire e o de Lula, durante o governo FHC. Enquanto o PPS se colocou como oposição propositiva, setores do PT defenderam o “fora FHC” no segundo mandato tucano. Freire firma posição do PPS em relação ao atual governo: “Com Lula, estamos no governo e em sua base de apoio. Mas, como antes, devemos fazer a boa crítica quando necessária e continuar um partido formulador e propositivo”.

Lançado durante o Carnaval, o documento do PPS e, em alguns trechos, pessoalmente de Roberto Freire, deverá repercutir. O presidente do PT, José Genoíno, já tenta pôr panos quentes, evitando uma ruptura. Afinal de contas, será nos próximos dias que a oposição formal – PSDB e PFL -, desencadeará, como anunciado, os ataques que considera o governo Lula merecedor, embora esteja apenas começando.