No vale-tudo da campanha eleitoral, até há pouco imaginava-se que o governo FHC, o centro, a direita, o mercado financeiro e organismos financeiros como o FMI jamais admitiriam uma vitória de um candidato de esquerda. E como os oposicionistas Lula, Ciro e Garotinho se apresentam como de esquerda ou se travestem de esquerdistas, parecia que tudo seria feito para forçar a vitória do situacionista José Serra. Em comentário feito há algumas semanas, dissemos que tudo indicava que o presidente Fernando Henrique Cardoso estava voltando para suas origens político-ideológicas. Foi líder estudantil, perseguido e exilado pelo golpe militar de 1964 e participou de vários movimentos reivindicatórios e de protestos, lado a lado com Lula. Recentemente, FHC declarou que num segundo turno com Ciro e Lula, apoiará Lula.

Essa é uma análise política com profundas implicações econômico-financeiras, tanto que os resultados das pesquisas desencadearam uma tempestade no mercado e um severo ataque especulativo contra o Brasil. Mas há, também, uma análise técnica que faz crer que o atual governo, mesmo que torça e trabalhe para a eleição de Serra, digere bem uma vitória de qualquer outro candidato.

Anunciado o acordo com o FMI, de US$ 30 bilhões, com liberação de mais US$ 10 bilhões das receitas cambiais, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, surpreendeu com declarações de que o entendimento com o organismo multilateral não restringe a ação do próximo governo. Estaria ele referindo-se, apenas, ao fato de que 80% do empréstimo concedido só será liberado com a aquiescência do presidente eleito? Sim, mas é mais do que isso.

Fraga sustenta que “não existe um modelo único de desenvolvimento, mas a base de responsabilidade é fundamental. O acordo preserva essa base, mas não impõe nenhuma amarra a um desenho maior de política econômica e social”. Com isso, evidencia que o acordo com o FMI não impede políticas diversas da praticada pelo atual governo, tida como neoliberal. Aponta para o fato de que, no mundo, governos liberais, social-democratas, socialistas ou que rezam por outras cartilhas, são viáveis e podem negociar com o Fundo. E que a base de responsabilidade, ou seja, o cumprimento de compromissos assumidos, geração de superávits, ajuste fiscal, adequada política monetária, controle da inflação e outras condicionantes, valem tanto para uns, como para outros.

Para Armínio Fraga, “o acordo fala por si mesmo, os números falam por si. Ele é um acordo espetacular para o Brasil”.

Assim, qualquer que seja o presidente eleito, poderá aceitá-lo e receber os recursos só liberáveis no novo governo. Ou poderá rejeitá-lo, se sentir-se capaz de governar o Brasil sem esses recursos, o que parece se não um milagre, pelo menos muitíssimo difícil. Aceitando-os, o novo presidente, seja de que ideologia for e que programa apresente, poderá governar, desde que não abjure os compromissos de responsabilidade que qualquer país deve preservar. O povo está livre para votar em quem bem entenda, sem imaginar que este ou aquele candidato, se eleito, será um desastre irremediável para o País. O importante é, pois, debruçar-nos sobre os programas dos candidatos, convencendo-nos de qual deles tem as melhores propostas e sabe como cumpri-las. O acordo com o FMI, na forma como foi elaborado, só pode ajudar. E quem achar que atrapalha, que o interrompa quando assumir a presidência.