Arte: Gisele Seguro da Silva/O Estado

As atividades relacionadas à matemática desenvolvidas nas escolas têm sido marcadas por constantes mudanças. Surgem novas metodologias e diferentes maneiras de abordar os conteúdos com o objetivo de fazer com que o aluno tenha interesse pela disciplina. Professores procuram colocar em prática novas metodologias para ensinar. Pesquisadores procuram avançar em seus trabalhos, conectando-se a idéias que surgem em discussões acadêmicas, e podem sofrer influências de centros de excelência localizados em diferentes locais do planeta.

Hoje ainda temos escolas que insistem em um abordagem supostamente ?tradicional?, mas o processo fica comprometido porque, somado a outras questões, existe o problema de que nem sempre há uma unidade no sistema educacional, ou seja, não se podem garantir os pré-requisitos de um nível para o outro. Além disso, os alunos recebem a influência de muitas idéias e uma delas é a da matemática como ferramenta. É muito comum o aluno perguntar ao professor sobre a utilidade dos conteúdos.

Felizmente temos escolas e professores interessados em dar uma nova roupagem aos conteúdos. É evidente que a essência dos conceitos matemáticos não sofre modificação. As idéias permanecem. O que torna o processo mais produtivo são as metodologias que surgem a partir das relações entre professores, pesquisadores e cotidiano.

E que tipo de questões do cotidiano são relevantes no atual contexto? Hoje, as discussões a respeito dos problemas ambientais têm aumentado, uma vez que o assunto está estritamente relacionado com a saúde e o bem-estar das pessoas. Surgem cursos de graduação, especializações e pós-graduações na área ambiental.

Realmente o tema é importante, mas o que a matemática tem a ver com isso? Quando se pensa em fazer a análise de um problema ambiental ou investigar, por exemplo, a relação entre a quantidade de árvores de uma cidade e os fenômenos climáticos, é necessário recorrer a tabelas, gráficos, ferramentas computacionais e, não raramente, a modelos matemáticos já existentes.

Conceitos matemáticos podem ser úteis para analisar, por exemplo, as questões de coleta e reciclagem de lixo, inundações, materiais descartáveis, produtos que interferem na camada de ozônio. Esses assuntos podem ser tratados pelo professor de matemática, que pode dar importantes contribuições para a sociedade.

É possível despertar o interesse dos alunos para problemas que podem ser relevantes no futuro. Por exemplo, quanto por cento da água que temos disponível é desperdiçada? Quantas pessoas tomam água da torneira e quantas recorrem aos recipientes de água mineral? Como está o ar que respiramos?  Qual a importância das árvores para as cidades? O que acontece quando grande porção do solo é coberta por concreto, asfalto ou outro material?

As questões são várias e podem ser tratadas em uma aula de matemática. O professor pode, em um estágio inicial, a partir de simples coleta de dados, despertar em seus alunos uma consciência para os problemas ambientais. Em um nível mais adiantado podem ser feitas visitas a instituições que fazem o tratamento da água, reservas florestais e outras organizações relacionadas ao ambiente. Aí pode se tomar conhecimento de como são feitos os reflorestamentos, recuperação de áreas degradadas, despoluição de rios e outras interferências na natureza. Em níveis ainda mais avançados podem ser feitas pesquisas mais criteriosas e, a partir dessas pesquisas, desenvolver modelos matemáticos. Nesse estágio é possível verificar que, quando queremos entender um problema com maior precisão, mais ferramentas matemáticas são necessárias.

Estabelecer relações entre conceitos matemáticos e questões ambientais pode ser um grande instrumento de incentivo à aprendizagem. O trabalho passa a ter uma dimensão social. Utilizamos água em nossas casas, produzimos diariamente uma certa quantidade de lixo, nos vestimos de acordo com o clima e nossa saúde está intimamente ligada ao ar que respiramos nos ambientes em que trafegamos.

O que se propõe aqui é um despertar para o fato de que estamos sujeitos às condições que o ambiente nos oferece e que a maneira como interagimos com ele pode determinar as condições das futuras gerações. Fica o convite aos professores de matemática para que, em suas atividades, passem a trabalhar com questões ambientais. Os resultados podem ser muito benéficos e a sociedade talvez possa entender ainda mais por que o professor é um agente de mudanças sociais.