Dentre as inúmeras exonerações de ministros que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu-se constrangido a assinar, a que mais lhe aguçou a sensação de perda foi a do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Médico sanitarista, Palocci se elegeu deputado estadual e depois prefeito de Ribeirão Preto, um dos municípios paulistas de maior expressão política, social e econômica, atuando em perfeita sintonia com o programa do PT, partido a que estava filiado desde os tempos de estudante universitário.

No primeiro esforço vitorioso de Lula para chegar à Presidência da República, em 2002, com o assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André (SP), coordenador-geral da campanha, a escolha do substituto premiou a firme atuação de Palocci à frente da Prefeitura de Ribeirão Preto, além das inúmeras evidências de fidelidade aos ideais partidários e o peso do apoio pessoal ao então candidato. Palocci se constituiu numa grata revelação como coordenador da campanha e causou surpresa quando seu nome foi anunciado para o Ministério da Fazenda, tendo em vista que durante todo o tempo o consultor de Lula para assuntos econômicos havia sido Guido Mantega, deslocado para o Planejamento.

Não é de hoje que se admite nos meios políticos de Brasília a intenção declarada mais de uma vez pelo presidente Lula, de voltar a contar com os préstimos de Palocci na Esplanada dos Ministérios, até como forma de reparação à dispensa de um dos mais graduados e diletos auxiliares. Depois de exonerado, Palocci disputou e obteve uma cadeira na Câmara dos Deputados, onde cumpre um mandato discreto, como os demais petistas de primeira linha, destacando-se, contudo, no trabalho quase sempre anônimo das comissões internas, em função da experiência adquirida no trato da problemática econômica nacional.

Ao que parece, a hora do retorno de Palocci ao primeiríssimo escalão ainda está indefinida e, apesar do grande desejo de Lula não poderá ocorrer depois do dia 5 de junho, quando os ministros Luiz Marinho e Marta Suplicy vão deixar os cargos na Previdência e Assistência Social e Turismo, a fim de disputar os cargos de prefeito municipal em São Bernardo do Campo e São Paulo, no próximo dia 5 de outubro. Segundo se cogita no Planalto, o substituto de Marinho na Previdência está entre o deputado José Pimentel (PT-CE), o secretário-executivo Carlos Eduardo Gabas e Marco Antonio de Oliveira, atual presidente do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Marta indicou para o posto o secretário-executivo Luiz Eduardo Pereira Barreto.

A expectativa de Lula quanto à segunda nomeação de Palocci dependia, porém, do arquivamento da ação instaurada contra o ex-ministro no Supremo Tribunal Federal (STF), pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Pereira. Lula aguardava que esta fosse a decisão do ministro Gilmar Mendes, antes de assumir a presidência da mais alta corte de Justiça do País, mas tal atitude ainda não foi anunciada. Caso o ministro Gilmar Mendes tome a decisão antes do dia 5 de junho, há quem sustente que o presidente não perderá a oportunidade de trazer de volta para o governo o antigo colaborador.

Na ótica dos caciques do lulo-petismo, a volta de Palocci acrescentaria à lista de candidatos puros à sucessão de Lula um nome de prestígio, mesmo tendo sofrido alguns arranhões pelos problemas com a Justiça. É óbvio que os entusiastas do ex-ministro teriam de arcar com a pesada tarefa de dar viabilidade à pretensão e, caso a hipótese se confirme persuadir o novo ministro a gastar todas as fichas na construção da candidatura e, em seguida, duma campanha pesada a que não faltarão argumentos e adversários dispostos a refrescar a memória dos eleitores desencavando a triste memória de um passado indigno que deveria permanecer para sempre no esquecimento.