A crise tornou-se insuportável e não houve outra saída senão a demissão do ex-todo-poderoso czar da economia brasileira, a partir do momento que Jorge Mattoso, presidente já substituído na Caixa Econômica Federal, admitiu em depoimento à Polícia Federal ter passado às mãos do ainda ministro Antônio Palocci as cópias dos extratos do caseiro Francenildo Santos Costa, obtidas em flagrante agressão ao direito constitucional de inviolabilidade do sigilo bancário.

No final da tarde de segunda-feira Palocci entregou o pedido de exoneração ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicado na edição do DOU na manhã de ontem, resguardado pela expressão protocolar ?a pedido?. Seu substituto no Ministério da Fazenda é o economista Guido Mantega, ministro do Planejamento no início da administração de Lula e, mais tarde, deslocado para a presidência do BNDES.

A saída de Palocci, a quem Lula devotava confiança inabalável e jurava manter no cargo até o final do mandato, deixa o presidente sem o respaldo do remanescente do chamado núcleo duro. Antes haviam naufragado os ministros José Dirceu e Luiz Gushiken, na esteira das denúncias feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson sobre o mensalão, abalando de tal forma a estrutura do governo e seu principal braço político – o Partido dos Trabalhadores -que toda a cúpula dirigente foi removida do cenário.

No momento em que o novo ministro falava aos jornalistas, minutos após a indicação, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, anunciava estar deixando a função, atiçando as preocupações do mercado com a provável saída do secretário nacional de Política Econômica, Bernardo Appy, do secretário do Tesouro, Joaquim Levy, e, provavelmente, do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Mantega declarou que a política econômica, avalizada pelo presidente da República, não sofrerá nenhuma mudança com a troca do principal executor, mas já na manhã de ontem o mercado mostrava alguma inquietação. O dólar abriu as operações com alta de 2,5l%, a R$ 2,227, e o risco Brasil medido pela consultoria JP Morgan disparou 5,15% e chegou a 245 pontos.

Em entrevista ao Bom Dia Brasil, Mantega havia declarado ser favorável a taxas de juros mais civilizadas, mostrando coerência com a posição que sempre perfilhou de quedas mais aceleradas da taxa Selic, hoje em 16,5%. A sinalização do novo ministro da Fazenda, nas próximas horas, deverá oferecer o fundamento para o mercado estratificar a avaliação dos rumos da economia, embora ninguém aposte em mudanças drásticas em ano eleitoral.

Contudo, o presidente Lula tem uma carga severa de preocupação, pois a oposição não pretende cruzar os braços diante da aparente facilidade que imagina ter para, enfim, chegar ao chefe do governo. Circulavam pelo Congresso rumores sobre a oportunidade de ir a fundo na investigação das ligações de Fábio Lula da Silva, filho do presidente, com a Telemar, bem como sobre as atividades ainda não esclarecidas de Paulo Okamotto, nomeado por Lula para a superintendência nacional do Sebrae. O presidente não terá facilidades.

Uma das vertentes não desprezadas nessa conjuntura aziaga é que o próprio governo venha a ser acusado da prática de crime de Estado, pela quebra do sigilo bancário do caseiro, fato que poderia desembocar, segundo os especialistas, no pedido de impeachment do presidente.

Com a perda do foro privilegiado de julgamento apenas no Supremo Tribunal Federal (STF), Palocci corre o risco de ser indiciado pelo delegado seccional de Ribeirão Preto, Benedito Antônio Valencise, por falsidade ideológica, peculato, formação de quadrilha e superfaturamento.

Enquanto isso, o simples caseiro Francenildo Santos Costa foi convidado pelo jurista Miguel Reale Júnior para falar na sessão de desagravo que a OAB/SP vai promover nesta quinta-feira. O jovem que somente conheceu o pai biológico aos dez anos de idade limitou-se a afirmar que dessa vez ?o lado da mentira perdeu?.