São Paulo (AE) – A Comissão de Ética do PT concluirá amanhã (11) o novo relatório que recomendará a expulsão do ex-secretário nacional de Finanças e Planejamento do partido Delúbio Soares, pivô da crise do "mensalão". O argumento dos integrantes da comissão é que Delúbio praticou "gestão temerária", terceirizando as finanças da legenda.
Emissários do Campo Majoritário – grupo que abriga deputados e dirigentes da legenda acusados de envolvimento no escândalo – tentam convencer Delúbio a pedir desfiliação, como fez Silvio Pereira, então secretário-geral do PT, em julho, para evitar mais constrangimentos. Em conversas reservadas, petistas dizem que, embora Delúbio tenha recorrido à Justiça em setembro – conseguindo liminar para evitar a degola -, o destino dele está traçado.
Até hoje, porém, o ex-tesoureiro – que está apenas afastado do partido, à espera do julgamento – resistia a sair de livre e espontânea vontade. Ex-sindicalista, Delúbio é amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Auxiliares do presidente contam que ele não acredita que Delúbio tenha se beneficiado do caixa dois porque, nos tempos de vacas magras, sempre pôs dinheiro do próprio bolso para ajudar o PT. Mesmo assim, Lula está muito irritado com o companheiro e tem dito que ele fez "lambança".
O relatório da Comissão de Ética ainda passará pelo crivo do Diretório Nacional, com reunião marcada para o dia 22, quando tomará posse a nova cúpula partidária. O parecer pela condenação de Delúbio será votado, então, por um diretório que não lhe é favorável, uma vez que o Campo Majoritário perdeu hegemonia depois da eleição direta no PT.
Luix Costa, um dos integrantes da comissão, disse que apresentará texto separado, cobrando a abertura de processo disciplinar interno também para os outros acusados pelas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) dos Correios e do "Mensalão". Estão na lista os deputados José Dirceu (SP), ex-chefe da Casa Civil, João Paulo Cunha (SP), ex-presidente da Câmara, Professor Luizinho (SP), Paulo Rocha (PA), Josias Gomes (BA), José Mentor (SP)e João Magno (MG).
"Espero convencer meus companheiros a unificar todas as propostas num único relatório", afirmou Costa. "Não há como alguém no PT dizer que uma única pessoa montou todo o esquema. Está mais do que claro que não foi assim e, portanto, não é possível responsabilizar um só."
A tendência, no entanto, é que a comissão arquive a proposta de Costa, da corrente Ação Popular Socialista (APS). Quase todos os militantes da facção saíram do PT e migraram para o Psol, a exemplo do deputado Ivan Valente (SP) e de Plínio de Arruda Sampaio, candidato derrotado na disputa pelo comando petista. Luix Costa promete engrossar a fila.
O presidente interino do PT, Tarso Genro, também avalia que Delúbio não agiu sozinho. "Não acho que ele seja o responsável exclusivo por tudo o que aconteceu no PT", disse Genro. "Aliás, não há responsabilidades individuais: tudo se organizou dentro do PT com uma estrutura paralela. Vejo mais um processo originado de métodos de direção e de integração partido-Estado, partido-governo, feito de maneira equivocada."
Oficialmente, a dívida do PT está em R$ 55 milhões e é resultado de empréstimos tomados nos Bancos Rural e BMG, tendo como avalista o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. Na prática, porém, o rombo passa R$ 160 milhões, mas a cúpula petista não reconhece o débito.