Se estivesse numa universidade qualquer, Lula seria um aluno repetente. Seu governo ganhou nota geral cinco pelo desempenho no primeiro ano à frente do poder, segundo a avaliação do Pensamento Nacional das Bases Empresariais – PNBE. As realizações ficaram abaixo do esperado e “há um certo desencanto com a eficácia do governo”, segundo resume um de seus integrantes. A pesquisa, realizada na primeira quinzena de fevereiro, antes do “Waldogate” portanto, leva em conta apenas o exercício de 2003, farto em promessas, inclusive aquela do “espetáculo do crescimento” até agora não iniciado.

Criado em 1987 por então jovens empresários preocupados com cidadania, desenvolvimento e justiça social, o movimento foi, em termos gerais, mais generoso com o presidente Fernando Henrique Cardoso em seus dois períodos de governo. O do PT recebeu nota 3,7 no quesito eficiência administrativa (está faltando profissionalismo no serviço público) e 3,8 em educação. Mas a principal decepção dos empresários está no campo das realizações sociais, exatamente o que fora anunciado como o ponto forte do novo governo. Um conselho: Lula precisa “continuar e melhorar” o que já vinha sendo feito no governo FHC, e “não reinventar a roda”, dizem os empresários. Mais que a fome (o Fome Zero foi um programa que não deslanchou), deve atacar o desemprego – a principal e a maior preocupação dos dias atuais em todos os quadrantes brasileiros. Quem tem emprego garantido não passa fome e cuida da fome dos seus, sem precisar do governo.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em setembro de 2002, o Brasil contabilizava um contingente de 7,9 milhões de brasileiros desocupados. Gente em condições de trabalhar, sem oportunidade de trabalho. Foi sobre essa realidade que Lula, o candidato cheio de vontades políticas, prometeu dez milhões de novos empregos em apenas quatro anos. Menos de dois anos depois, chegamos aos dez milhões…, mas de desempregados. (Atualizada pelos indicativos da Pesquisa Mensal de Emprego – PME, limitada às seis maiores regiões metropolitanas, a nossa realidade denuncia hoje pelo menos dez milhões de desempregados.)

Além disso, houve o avanço do trabalho informal, do subemprego e, ainda pior, a queda dos valores nominais dos salários pagos a quem conseguiu se manter no emprego. Olhando as coisas através dessa realidade, é vã poesia o que dizem alguns homens de Lula, como o ministro Guido Mantega, do Planejamento. Para ele, a queda do PIB – Produto Interno Bruto, no ano passado, foi apenas um “ajuste suave” em comparação ao preço pago pelo povo de outros países. Como quem diz: graças a Deus e ao governo do PT, não foi pior. Ora, ora, não somos uma ilha, é certo, mas vivemos no Brasil e aqui criamos nossos filhos.

Não há dúvidas que, se a pesquisa fosse repetida hoje, a nota do governo Lula seria ainda menor. O Carnaval já passou e o desgaste com o caso Waldomiro, que arranha fundo a credibilidade do coração do governo petista, não terminou. Por isso, recomenda-se que Lula e seus principais auxiliares substituam a usual arrogância no trato de certas questões (por exemplo, a “herança maldita”) por um comportamento mais consentâneo com esses terríveis momentos que estamos atravessando. Repetir que o caso Waldomiro não depõe contra a credibilidade do governo, como quer o mesmo Mantega, é chover no molhado. Melhor deixar o tempo (e o presidente do Senado, José Sarney) cuidar disso.

Conta a crônica brasiliense que o governo agora está muito preocupado em estabelecer uma agenda positiva, que produza densa e escura cortina de fumaça sobre o estrago causado pelo corrupto flagrado à direita do homem forte do Planalto. Lula deveria tratar mais de trabalhar de verdade. E de igualmente fazer seus auxiliares pegarem no pesado para valer, agora que o discurso da transparência já foi, também, para as cucuias.