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Nossas virtudes

  • Por Editorial Do Jornal O Estado Do Paraná

Segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o imperador francês Napoleão Bonaparte teria exclamado, quando lá esteve, que a China era um gigante e que, no dia em que acordasse, o mundo iria tremer. Completamente errado. Bonaparte nunca esteve na China e Lula não passaria no Show do Milhão. A frase, entretanto, pronunciada provavelmente sob o céu de Paris, seria verdadeira. De olho no gigante jamais visto por Bonaparte, Lula quer a aproximação do Brasil não apenas com a China, mas com a Índia, o Japão e o Oriente Médio e outros mercados.

Ordenou ao ministro Luiz Furlan, da Indústria e Comércio Exterior, que organize a primeira caravana. Para começo de conversa, quer uma semana de Brasil no Oriente Médio “para que a gente possa vender os produtos do Brasil” lá fora. Se os senhores da guerra cada vez mais iminente deixarem, é claro. De qualquer forma, Lula quer um comércio exterior mais agressivo. Nossa parte no mundo – ensinou o presidente à porta de uma fábrica no Grande ABC, onde forjou sua liderança – será conquista nossa, e não concessão de outros países. Afinal, temos 500 anos, somos competentes, e precisamos buscar nosso espaço no mundo sem esperar compaixão de ninguém. Em outras palavras, como na canção, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Lula falou no gigante chinês para lembrar que gigantes também somos nós. Está escrito até no hino nacional. Gigante adormecido, é bem verdade, mas para acordar “basta apenas que lutemos para conquistar nosso espaço no exterior”. Mais. Que defendamos nossas indústrias e nossa agricultura. Que não fiquemos achando que o Brasil é pobre porque os Estados Unidos e a Europa são ricos. Muito menos ainda que fiquemos culpando o imperialismo. “Temos – exortou Sua Excelência – de parar de ver o defeito dos outros, dos nossos vizinhos, e olhar para as nossas virtudes”.

O discurso, como se vê, foi um pouco atabalhoado e permeado de equívocos históricos. Mas provavelmente o que Lula quis dizer tem a ver com o que ele afirmava durante a campanha eleitoral a respeito da necessidade de elevar a auto-estima dos brasileiros. Uma coisa um pouco difícil de resolver num discurso, mas fácil de imaginar como seria na prática.

Além de conquistar mercados externos para a venda de nossos produtos e encaçapar dólares para o equilíbrio de uma balança pesada de dívidas e juros, uma das coisas a pensar seriamente seria também a valorização do imenso mercado interno – esse gigante que temos em casa e que, não raramente, desperta a cobiça de mercadores estrangeiros, caçadores, como nós, de gigantes além-mar. Gigante por gigante, o doméstico teria uma vantagem sobre os demais por estar perto. Bastaria maior poder de consumo a assalariados e trabalhadores, mais segurança nas ruas, mais dedicação na escola, mais incentivo à produção, menores juros e tudo quanto dizia o candidato no despertar da esperança contra o medo.

Dentre nossas virtudes não citadas pelo presidente Lula, estaria certamente esta de acreditar. Apesar das decepções que se acumulam, dia após dia. Inclusive a que envolve a prioridade número um do governo – o Fome Zero – cujos coordenadores reconhecem, enfim, não ter onde guardar as toneladas de doações de alimento para a parte combalida do gigante nacional.

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