Alguns textos da literatura assinalada pelo adjetivo infanto-juvenil, flutuante e indefinido, tornaram-se canônicos. Um dos contos muito apreciados pelas professoras é A moça tecelã, de Marina Colasanti, que abre o volume Doze reis e a moça no labirinto do vento, editado pela primeira vez em 1982.

Já ouvi e li as mais diversas interpretações orais e exegeses desse texto. Todas envoltas nos mais retumbantes elogios. Para os poucos que ainda desconhecem a narrativa, sintetizo-a.

A protagonista é uma jovem tecelã, dotada de poderes criadores, próprios do artista. Faz brotar de linhas e lãs, cores e movimentos de tear a própria realidade: a manhã, os alimentos, as vestimentas. Até que, sentindo-se solitária, constrói no tear a figura de um homem, que bate realmente à sua porta. Casada, vê-se subordinada aos caprichos do cônjuge, obcecado em busca de riquezas. Tolhida em sua criatividade, destece o rapaz e volta a sentir-se dona de sua história.

É possível perceber, nesse rápido resumo, a postura politizada em defesa da mulher que marca a obra da escritora, bem como dos ideais de liberação em voga na cultura e na sociedade da época. A leitura metaficcional, que pretende ver no texto a metáfora da criação artística e de seus poderes, veio na seqüência da interpretação sociológica. Nenhuma delas traduz toda a beleza, o ritmo, o colorido da linguagem de Marina Colasanti. A narrativa dá suporte a outras interpretações, não menos ideológicas e, sobretudo, mais duradouras.

Não pretendo enveredar pela discussão semântica desse conto. Interessa-me tratar de diferentes posturas docentes em relação ao tratamento que a escola muitas vezes dá ao trabalho com a literatura.

Num exercício de imaginação, construo um ambiente de aprendizagem. Algo como um curso de capacitação. As personagens, como em toda criação, terão parecença com seres reais, mas "qualquer semelhança será mera coincidência".

Imagine aquela professora muito alegre e comunicativa, a falar pelos cotovelos, roupas de cores alegres, a sandalinha da moda, cabelos falsamente despenteados. O texto lhe parecerá feito sob medida para um belo discurso apaixonado sobre o papel da mulher na sociedade, e o novo comportamento dela no cotidiano: sem convenções, nem compromissos.

Já aquela professora mais experiente não fugirá ao desejo de, com a voz enrouquecida pelos anos de magistério e os olhos presbiópicos, dar seu depoimento sobre o tempo de mocidade e as mudanças ocorridas, deixando escapar aos poucos, no tom saudosista, a censura aos modos desabridos das professoras/mulheres de hoje.

Rompendo a timidez, aquela outra professora, contumaz freqüentadora de cursos de capacitação, puxando da memória o conhecimento armazenado, se põe a discorrer sobre a importância da literatura para o estímulo ao prazer de ler, para enfrentar as surpresas da vida e para o amadurecimento do caráter.

Imediatamente retruca outra colega, impaciente, balançando com rapidez e firmeza os longos cabelos cacheados: "Não concordo! Meus alunos detestariam essa história: é muito boba. Eles estão acostumados a filmes e livros de narrativa mais rápida, com suspense e muita ação. O texto não combina com a agitação dos adolescentes de hoje! Além do mais, as palavras são muito difíceis para eles".

Sempre tem, num conjunto de professores, aquele/aquela que, empinando o nariz e firmando os olhos num ponto vago de uma parede longínqua, inicia a fala, com forte acento no possessivo. "Na miiiiiinha leitura, essa moça tem todas as características da mulher operária, que deve resolver sozinha os problemas de sua sobrevivência. Eu faria um debate sobre a situação do trabalho feminino e, aproveitando as notícias dos últimos dias, falaria também do trabalho escravo no Brasil, e da exploração do trabalho infantil. O debate vai ficar ótimo e posso até pensar num painel para o corredor da escola que leva ao pátio. Os alunos precisam ser conscientizados."

Percebe-se o quanto esse modelito meia oito de pensamento transformou o texto literário em cartilha política, desvirtuando o modo de composição estético de A moça tecelã.

O desfile de estereótipos docentes poderia se estender por mais algumas personagens. Não cabe neste espaço um exercício demonstrativo mais demorado. Mas o que aí está exposto já permite exemplificar o quanto a leitura docente – com todas as boas intenções de trabalhar um texto literário – pode fechar as portas para uma compreensão mais aprofundada do que seja a literatura.

Nós, professores, buscamos transformar a experiência pessoal, intransferível e, às vezes, inconfessável que o leitor vive com a literatura numa reflexão racional, utilitária, mediada por posições fechadas ou saudosistas. Em nosso afã de conquistar leitores e mostrar aos colegas como transformamos a leitura em algo concreto e mensurável, erramos a mão e o caminho. Construímos para o texto literário uma versão escolarizada, quase sempre desagradável e mentirosa, em relação aos propósitos a que o texto se destina. Perdemos não só o caminho do prazer estético como, também, os leitores do presente e os futuros amantes da literatura.

Convido você, leitor paciente, a pensar qual é a natureza do fato literário, e quanto dessa natureza conseguimos preservar no contato com os textos. Observe o que afirma a experiência da leitora/escritora Ana Maria Machado, em Ilhas no tempo (Nova Fronteira, 2005): "Parece certo que é necessário ter uma certa espécie de relação com o tempo para captar o que há de único em cada obra e em cada momento da vida. Para que essa leitura (dos livros e do mundo) nos sintonize com o real em toda sua complexidade e não permita que o substituamos pelo virtual ou pelo espetáculo, duas diferentes formas de ilusão".

É tempo de aprender, no tear das histórias, qual é o fio que nos amarra às texturas da literatura.