A atriz Norma Bengell estava passeando, num domingo, às 11h20, pela Rua Sérgio Porto, na Gávea, Rio de Janeiro, diz a notícia que distraidamente, mas certamente atenta para não ser assaltada. De repente, pisou em um bueiro fechado, com aquela tampa de ferro pesadíssima, de sólida aparência. Mas, eis que a tampa virou e a artista caiu dentro do buraco. Uma de suas pernas ficou prensada. “Tive esmagamento de todo o tecido da minha perna. O osso ficou exposto e fui levada por uma amiga para a Clínica São Vicente.” No mesmo dia, a atriz foi operada, passou por uma cirurgia plástica, tomou vacina antitetânica e antibióticos para evitar infecções e quase teve de receber um enxerto no lugar do tecido esmagado. Foi grave. Desabafa a atriz: “É um descaso total com a cidade. Quantas pessoas sofrem esse tipo de acidente e ninguém fica sabendo? É obrigação da Prefeitura olhar e tomar conta das ruas”.

Norma Bengell foi pão-dura em suas queixas. Todos os dias, casos iguais ou semelhantes acontecem não só no Rio, mas em todas as cidades brasileiras. Teria se enganado ao dizer que é obrigação da Prefeitura olhar e tomar conta das ruas? Nesta imensa federação de tantos estados e incontáveis municípios, vários níveis de competência, ou melhor, de incompetência, em determinados casos, para identificar a responsabilidade por alguma coisa, é preciso escrever um tratado. E, ainda assim, os tratadistas não chegarão a uma conclusão. A Secretaria de Obras do Rio informou que estava enviando um fiscal ao local do acidente com a atriz, para apurar as condições do bueiro onde ela caiu. E também verificar a quem pertence, se é do município, do Estado ou privado. Quem sabe se do governo federal, e aí, é responsabilidade do presidente da República. Como estava tampado, a Prefeitura considerou que estava “visualmente em boas condições”, o que para a perna esmagada de Norma Bengell não refresca nada. Coincidência que tenha acontecido na Rua Sérgio Porto. Lástima que o conhecido cronista de apreciada verve já tenha falecido. Senão, teríamos mais uma de suas preciosidades fazendo rir, para não chorar.

Estamos diante de uma questão metafísica. De quem é o buraco?

Certa vez, aqui em Curitiba, na Rua Desembargador Mota, um automóvel trafegava em velocidade normal, ao anoitecer, sob neblina. De repente, um carro menor, de São Paulo, parou no meio da rua e o choque foi inevitável. Havia uma valeta aberta em toda a extensão da rua, sem nenhuma sinalização. O paulista teve de ir embora, roendo as unhas, com o carro estragado, pois o buraco seria da empresa de saneamento, mas a obrigação de fechá-lo, da Prefeitura.

Diríamos que esses acidentes e as dúvidas sobre quem é o dono do buraco são questões menores, embora nosso apreço pela perna da Norma Bengell. Pior é o atendimento a necessidades maiores da população, que ninguém sabe quem deve prover, quando, como e não raro se realizam ações paralelas gastando mais e satisfazendo menos.

Agora que Lula vai ser presidente e, em boa hora, imagina um grande projeto de combate à fome, é bom que seu governo atente para essa confusão. Já existem diversos projetos de assistência alimentar, nenhum suficiente, mas todos gastando milhões. É preciso cuidar para que não aconteça que muita gente continue passando fome porque não se sabe bem quem é o responsável por tapar o buraco do seu estômago. E quem deve pagar a conta.