Falar pouco, baixo e nunca perder o controle emocional foi um dos conselhos dados ao presidente Lula, já antes de seu embarque para a China, onde se encontra à frente de uma comitiva nada modesta de sete ministros, cinco governadores e cerca de quinhentos empresários. Tanta gente numa única missão confere importância excepcional aos encontros programados com bastante antecedência e que resultarão na assinatura de quase uma dúzia de contratos empresariais pré-acertados, sem falar nos que podem surgir pela estrada. Quando estiver de volta, no próximo sábado, o presidente poderá retomar seu ritmo habitual e falar à vontade, mas, para o bem do Brasil, convém que ele tenha aprendido a chinesa lição.

O Brasil olha para a China com esperanças e a China – assim dizem alhures – olha para o Brasil com grande interesse. Com ou sem Alca – Área de Livre Comércio das Américas, seríamos nós a porta predileta para a entrada do gigante amarelo no cobiçado mercado da América Latina. Aqui os chineses imaginam oportunidades crescentes e fáceis para a venda de seus produtos, mas muito mais importante seria a possibilidade que vislumbram na busca de matérias-primas e commodities. Só há um problema: não querem ser enganados pelo falso discurso dos transgênicos, já em nome da fome mundial liberados pela FAO, das Nações Unidas, e inclusive pela União Européia. O que importa para eles é que produtos agrícolas, como a soja, não sejam tratados com agrotóxicos. Neste caso, a “tolerância zero” chinesa é um pouco diferente da nossa. Não admite nem mesmo o índice prescrito pelas normas internacionais (0,2% de presença de sementes tratadas). Lula já sabe que quando Pequim fala zero, contrastando com o nosso Fome Zero ainda tão distante, é zero mesmo e fim de papo.

Apesar desses contratempos ditados pela intransigência amarela, o fluxo de comércio entre o Brasil e a China subiu 69% no ano passado (qualquer coisa perto de sete bilhões de dólares americanos) e só no primeiro trimestre deste ano deu mais um salto de 40%. Nos últimos tempos, as exportações brasileiras para a China subiram duas vezes mais que as chinesas para o Brasil. Aquele país, distante meio mundo, é o terceiro maior destino das exportações tupiniquins, perdendo apenas para os Estados Unidos e para a Argentina – esta, amargando crises sul-americanas aqui ao nosso lado. Para a China, entretanto, representamos apenas 1% das suas importações globais. Os negócios chineses, imagina Lula, podem contribuir para a salvação de seu atribulado mandato ao impulsionar nossa produção de qualidade (não apenas a agrícola), gerar divisas com as exportações e, de quebra, produzir pelo menos parte dos empregos de que precisamos. Em outras palavras, aquecer o ensaio para o prometido espetáculo do crescimento.

É verdade que o Brasil desembarca na China num momento em que lá se especula uma freada sem precedentes nos seus índices de crescimento, apregoados em 10% ao ano. Isso seria um balde de água fria nas disposições propagandeadas por Lula com tanto entusiasmo na semana que passou. O Itamarati faz as contas e calcula que, para um gigante, descer de 10% para 8% pouco representaria em nossas pretensões, calcadas em contratos de longo prazo. Bastaria competência e seriedade nos negócios, outro ingrediente muito apreciado em Pequim. Assim, antes de mais nada, seria bom seguir o conselho de falar pouco e agir com discrição, exatamente o contrário do que aqui acontece, onde o bate-boca dentro do próprio governo fabrica crises, inclusive onde elas não poderiam existir.

Seguindo a comitiva de Lula, transformado em caixeiro-viajante de um Brasil continental, muitas outras coisas interessantes aprenderemos sobre e com a China nesses dias. Uma delas pode ser a velha mas sempre válida lição de que o desenvolvimento econômico é incompatível com pruridos ideológicos. A outra, um pouco oriental, que o segredo é meio negócio andado para quase tudo. Antes de partir, Lula prometeu “uma revolução na saúde”. Já que estamos esperando por outras revoluções prometidas (crescimento, empregos e segurança), não custa acrescentar mais esta. Mas, como disse dias atrás o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, melhor que prometer fazer, é fazer. Aqui ou na China é a mesma coisa.