Nacionalização na Bolívia pode afetar investimentos no Brasil

Nova York – Os impactos sobre o Brasil derivados do anúncio da Bolívia, nesta semana, provavelmente, representam ameaça maior no que concerne ao fluxo de investimento estrangeiro do que um risco sobre a inflação doméstica. Analistas em Wall Street alertam sobre o risco de os tremores políticos na região pesarem, ao lado de juros maiores no globo, para uma dissipação dos fluxos para a América Latina, advertem que a reação do governo brasileiro à decisão da Bolívia tem sido muito branda e ponderam que podem ser exagerados os temores sobre implicações do efeito Morales sobre a inflação brasileira.

"A reação do governo brasileiro tem sido consideravelmente amena e há razões para acreditar que o Brasil continuará implementando uma estratégia suave de negociação", diante da aproximação das eleições, pondera o diretor de pesquisa para América Latina da consultoria especializada em risco político global Eurasia Group Christopher Garman.

Com a aproximação das eleições em outubro, a prioridade da administração Lula é evitar qualquer interrupção na importação de gás da Bolívia ou forçar a administração Morales a uma retaliação com aumento de preços de exportação ameaçando a retirada da Petrobras da Bolívia. As conseqüências desta estratégia, estima o analista, são que a habilidade da Petrobras em obter maior concessão do governo boliviano nos próximos seis meses será prejudicada, como também será eliminada a possibilidade de um posicionamento unificado dos operadores internacionais na Bolívia, que tiveram seus interesses afetados.

Exagero

Os temores sobre o impacto inflacionário de uma elevação dos preços do gás natural boliviano sobre a inflação no Brasil são avaliados como exagerados pelo economista-chefe para América Latina do UBS, Michael Gavin. "O efeito direto é claramente desconsiderável." Contudo, para o analista, os efeitos indiretos poderiam ser mais significativos. Assim, Gavin avalia que a melhor forma de avaliar os efeitos indiretos é olhar para o cenário macro.

No ano passado, o Brasil importou cerca de US$ 1 bilhão de gás natural, calcula o analista. Nos primeiros dois meses deste ano, as importações avançavam cerca de 70% em virtude da tendência de crescimento em volumes e de cerca de 45% de aumento nos preços que ocorreram na segunda metade do último ano, estima. "Vamos colocar as importações em 2006, em preços pré-Morales, em US$ 1 5 bilhão. Se todo este gás for incluído (de forma direta e indireta) nos bens dos consumidores, e se os preços de exportação boliviana forem dobrados, haverá cerca de US$ 1,5 bilhão de preços maiores de energia para serem refletidos nos custos dos bens de consumo, incluindo ônibus, táxis e tudo o mais que utiliza gás, direta ou indiretamente. Com o consumo pessoal estimado em cerca de US$ 560 bilhões em 2006, isto representa um aumento de custo aos consumidores de cerca de 0 25%."

Segundo o analista, assumindo que o IPC representa os padrões de gastos relativamente bem, esta é uma estimativa justa do impacto no IPC. Mas o especialista avalia que esta é uma estimativa excessiva do impacto sobre o IPC, entre outras razões também, pois os preços do gás boliviano não devem sofrer um aumento de 100%. Um alerta é que a Petrobras deverá aumentar o preço do gás produzido domesticamente em conjunto com o preço do gás importado, efetivamente passando mais de 100% do custo de importação para os consumidores locais. "Grande parte do impacto seria indireto e, provavelmente, distribuído em diversos meses", estima.

O analista reconhece que "um aumento muito grande dos preços do gás boliviano teria um efeito considerável sobre a balança comercial, mas não parece para nós como uma influência importante sobre a inflação."

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