Um dia depois da reestréia da propaganda eleitoral, o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, procurou desconstruir a estratégia do medo diante da instabilidade, exibida na noite de ontem no programa de TV do candidato José Serra (PSDB), apelando para a polarização dos sentimentos.

“Enquanto eles fazem a campanha do medo, eu faço a da esperança”, afirmou o presidenciável, numa reação ao depoimento da atriz Regina Duarte, para quem o Brasil corre o risco de perder a estabilidade, se Lula for eleito.

Na primeira estocada deste segundo turno, o petista também ironizou a insistência do tucano em pedir debates. Chegou até a imitar seu jeito de falar, como se fosse um papagaio repetindo a mesma frase.

“Enquanto o meu adversário não tem palanque, porque ninguém quer apoiá-lo, ele fica na televisão dizendo: quero debate, quero debate, quero debate”, criticou o candidato, durante comício no Parque Solon de Lucena, em João Pessoa. Militantes do PT e do PMDB – partido que fechou com Lula na Paraíba – caíram na gargalhada. Até agora, ele só confirmou presença no debate marcado para o dia 25, na TV Globo.

Para a platéia reunida no parque, Lula disse não ter “nenhum problema” em participar de um tête-à-tête público com Serra. “O meu problema é que tenho de percorrer 14 Estados onde há candidatos do PT ou de partidos aliados, e não vou deixar nenhum companheiro na mão”, justificou. Mais tarde, questionado por jornalistas, usou novamente o tom irônico para voltar ao assunto.

“Possivelmente, meu adversário não tenha nenhum Estado para visitar e, por isso, está lá, sentado numa cadeira, falando de debate.”

Animado com sua vantagem nas pesquisas, Lula foi além e mandou um recado para Serra. “O conselho que dou para ele é um só: ‘Saia para a rua para fazer campanha, porque em casa ninguém ganha a eleição’.” No mesmo diapasão, o coordenador do programa de governo do PT, Antônio Palocci Filho, insistiu em que o tucano “tem muito a explicar” depois do aumento da taxa de juros de 18% para 21%. “Se a Regina Duarte está com medo do Lula, é um sentimento dela, não da população”, rebateu.

Pimenta

No comício que reuniu cerca de 70 mil pessoas – segundo cálculo da Polícia Militar –, Lula pediu voto dos petistas para o governador Roberto Paulino (PMDB), que disputa o segundo turno com o ex-prefeito de Campina Grande Cássio Cunha Lima (PSDB). “Não deixo um amigo no meio do caminho”, destacou  ao levantar as mãos de Paulino. E, mais uma vez, voltou a artilharia contra o governo, demonstrando, na prática, que o estilo Lulinha paz e amor será mesmo apimentado na segunda etapa da eleição.

“O que falta neste país, além da resolução das questões econômicas e sociais, é caráter, compromisso ético e lealdade nas relações entre os políticos”, afirmou o candidato do PT. Depois, já discursando como presidente eleito, prometeu mostrar que diploma não faz falta. “Vou dar uma lição e provar que a arte de fazer política não tem nada a ver com universidade: não passarão quatro meses sem que eu chame um governador para conversar.”

Na Paraíba, Lula obteve 47,8% dos votos, com o apoio do PMDB – sigla que, nacionalmente, é coligada ao PSDB de Serra, mas enfrenta um turbilhão de divisões internas. O deputado federal Avenzoar Arruda, que concorreu pelo PT, ficou em terceiro lugar e ajudou a arregimentar adesões para Lula.

Pesquisas locais indicam números conflitantes de intenção de voto e, na gangorra eleitoral da Paraíba, ninguém sabe quem está na frente: se o tucano Cássio, que obteve mais votos no primeiro turno, ou o peemedebista Paulino.

Na tentativa de firmar novas alianças, a composição dos palanques no Estado virou uma salada mista. Cássio está com Serra, mas tucanos ligados a ele começam a montar comitês suprapartidários, que apóiam Lula. “Isso revela que estamos construindo um novo bloco de poder para governar o Brasil. Vamos trabalhar em parceria, porque não estamos preocupados com divergências ideológicas, mas com o povo que passa fome”, disse o petista. “O Cássio quer confundir o público, isso sim”, protestou Paulino.

O governador da Paraíba identificou represálias por parte da União depois de fechar acordo com Lula, ainda na primeira rodada da eleição.

Pelas suas contas, o Estado tem mais de R$ 150 milhões a receber. “Estamos sofrendo retaliações e temos recursos retidos para obras de saneamento e da duplicação da BR-230”, reclamou Paulino. “Vamos resolver isso”, prometeu Lula.