Foto: Evandro Monteiro/O Estado

Barzinhos instalados nos arredores das universidades curitibanas estão sempre movimentados, mesmo durante o período de aulas.

Basta dar uma volta para verificar a grande quantidade de barzinhos perto de universidades e estabelecimentos de ensino. Ficam lotados depois das aulas, e a freqüência também é grande mesmo durante o período em que os universitários deveriam estar dentro das salas de aula. É fácil ver estudantes fumando em grupos na saída dos colégios de ensinos fundamental e médio. Basta prestar um pouco de atenção para perceber que cada vez mais o jovem brasileiro está se envolvendo com fumo, drogas e álcool. E quanto mais cedo começar, maiores as chances de dependência. Isso é comprovado por dados alarmantes.

Levantamentos obtidos pela Associação Parceria contra Drogas apontam que pelo menos 70% da população brasileira entre 12 e 65 anos bebe ou consumiu álcool pelo menos uma vez na vida. Destes, 11,2% são dependentes. Se levarmos em conta somente a faixa etária entre 12 a 17 anos, a dependência chega a 5%.

Uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo em 2005 indica que o uso do álcool atinge níveis alarmantes em estudantes da 8.ª série do Ensino Fundamental, ou seja, adolescentes de 14 anos. Em escolas privadas, 85% das meninas e 83% dos meninos consomem bebidas alcoólicas. Nos estabelecimentos públicos, os índices são 83% das garotas e 72% dos garotos. Quanto ao cigarro, a mesma pesquisa mostrou que 50% das meninas de escolas privadas e 49% daquelas que estudam em colégios públicos fumam. No sexo masculino, a proporção é de 33% e 27%, respectivamente.

São dados preocupantes e que revelam outro problema ainda maior: fumo e álcool são fatores que podem induzir o jovem a experimentar e se tornar dependente de drogas ilícitas. Um levantamento do Ibope feito a pedido da Associação Parceria contra as Drogas em 1999, com 700 adolescentes entre 12 e 20 anos em cinco capitais brasileiras, aponta que apenas 2% dos jovens que não consumiram álcool em trinta dias fizeram uso de drogas ilícitas no mesmo período. Dos que utilizavam, 37% já haviam partido para drogas ilícitas. Segundo a pesquisa, dos 65% dos entrevistados que não fumavam, praticamente nenhum deles tinha usado drogas ilícitas. Entretanto, dos 37% que fumavam, um terço já havia utilizado drogas ilegais.

O uso precoce está totalmente ligado com a necessidade dos jovens em se auto-afirmarem e se sentirem pertencentes a um grupo. Isso ainda é reforçado pela crise de valores pela qual a sociedade passa atualmente. O consumo de cigarros começa entre 9 e 10 anos, de acordo com Iludia Rosalinski, técnica do programa estadual de controle do tabagismo da Secretaria de Estado da Saúde. Tudo tem início da idéia de se auto- afirmar, assim como no uso de outras drogas, ilícitas ou não. ?Cem mil jovens experimentam cigarro diariamente. 90%, ao longo da vida, se torna dependente do fumo?, constata.

Fumo e álcool estimulam uso de drogas ilícitas.

A situação ainda é influenciada pela facilidade do acesso e pelas experiências vividas dentro de casa. ?Alguns pais incluem o cigarro na compra do supermercado ou até mesmo pedem para os filhos comprarem?, comenta Iludia. Além disso, mesmo sendo proibido, cigarros e bebidas alcoólicas continuam sendo vendidos para menores de 18 anos. ?Os jovens estão fumando muito e associando muito tabaco à bebida alcoólica. A situação é bastante grave?, completa.

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Para Luiz Alberto Chaves de Oliveira, membro do corpo técnico da Associação Parceria contra Drogas, o problema também passa por outros fatores, como a propaganda intensa, o excessivo número de pontos de vendas de álcool e fumo, preço muito baixo e variedade de apresentação. ?Por isso, é essencial um trabalho que sensibilize os pontos a não venderem para menores de 18 anos?, opina.

Araci Asinelli da Luz, doutora em Educação e professora do Departamento de Teoria e Prática de Ensino do setor de Educação da Universidade Federal do Paraná, acredita que o consumo de drogas, antes mesmo de uma questão individual, deve ser tratado como um sintoma de uma doença social. A sociedade passa por uma crise de valores e a droga entra nesse contexto como um produto de venda, uma mercadoria como outra qualquer, em uma sociedade consumista. ?Existem várias razões para isso acontecer e que estão vindo à tona agora com essa crise. Os jovens não têm preparo, não são maduros para entender as conseqüências futuras disso. A droga faz parte da nossa sociedade e esta tem responsabilidade sobre isso?, comenta. Para ela, um dos fatores que culminou no crescente envolvimento de jovens com as drogas é a falta de políticas públicas que prezassem a prevenção no passado.

Prioridade é combater uso do álcool

Foto: Lucimar do Carmo/O Estado

Araci: modelo repressor.

A solução para a questão das drogas na juventude passa pela prevenção e a discussão científica do problema. Na opinião de Luiz Alberto Chaves de Oliveira, da Associação Parceria contra Drogas, a prioridade é combater o uso do álcool, que permite o acesso às outras drogas. Deixar que o jovem se envolva com bebidas alcoólicas passa por rever a idade mínima legal de compra; restringir hora e dia de venda; aumentar impostos e taxas, desde que com inteligência; restringir pontos de vendas; e exercer uma fiscalização séria e continuada. ?Também devemos promover mais instâncias de tratamento e estimular o tratamento ambulatorial. Combater o envolvimento dos jovens também passa pelo trabalho forte na escola, que precisa ser mais criativa para prender a atenção dos alunos. É preciso mexer também com a educação e as famílias, para garantir que existam normas a serem seguidas. Infelizmente, tudo isso tem ficado só na conversa?, avalia.

Para a professora Araci Asinelli da Luz, a sociedade ainda impõe um modelo repressor neste sentido. ?A polícia é necessária, mas somente isso não basta. Continuamos não sabendo como lidar com a crise. Mas acredito que seja possível reverter esse quadro. É preciso aceitar que a droga é um produto desta sociedade e, portanto, devemos saber como lidar com ela?, explica. Araci acredita que o tema deve ser tratado abertamente em casa e na escola, além de ser estudado de maneira científica. ?Isso só trará resultados a médio e longo prazos. Até lá, vamos sofrer com a ausência de políticas públicas?, classifica. A professora criou um grupo dentro da Universidade Federal do Paraná para discutir o assunto. É um curso semestral de técnicas e métodos de prevenção, oferecido à todas as licenciaturas e aberto à comunidade.

Experiência triste serve de alerta aos jovens

 

Transmitir as experiências vividas por uma pessoa que foi viciada pode ajudar a sensibilizar os jovens sobre o consumo de álcool, fumo e drogas. Este é o caso de João Santana. membro dos Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos desde 1996. Possui 38 anos e está totalmente limpo há dois. Começou a experimentar benzina aos sete anos. Depois de um vício que levou a sua vida embora, Santana está se reconstruindo com a tentativa de transformar a experiência que teve em prevenção para os mais jovens.

?Para fazer este trabalho, é preciso estar atualizado na língua dos jovens para que eles entendam o que você quer passar. Só falar não adianta. Há um descaso por parte do governo e da sociedade. Todos nós temos um pouco de culpa de a situação chegar onde chegou. São pais e mães que trabalham o dia inteiro e deixam os filhos sozinhos, sem limites, e por aí vai. Dentro de casa não há diálogo e compreensão?, afirma Santana.

O trabalho dele como voluntário começa em visitas a escolas, onde conversa com as orientadoras sobre a importância de se mostrar a realidade para os estudantes. Santana e outros companheiros do Narcóticos Anônimos alertam os jovens sobre as ciladas que as drogas podem trazer para as suas vidas. ?A gente às vezes fica chocado com as colocações e as dúvidas que eles têm. Mas vamos plantando a semente. Esses alunos levam essas informações para casa?, comenta.

Santana acredita que, além da prevenção e da estrutura familiar, é essencial dar apoio psicológico dentro da própria escola. Muitas vezes, os estudantes procuram ajuda, mas não têm para quem pedir socorro. ?Hoje em dia esse acompanhamento é muito importante dentro da escola?, opina.