Todas as tardes, na frente de um palco montado na Praça da Independência, em Kiev, capital da Ucrânia, milhares de manifestantes se reagrupam e cantam em uníssono, ao final dos discursos políticos de oposição ao presidente Viktor Yanukovich: “Slava Ukraini!” – “Glória à Ucrânia!”. O grito de guerra, lema do movimento Euromaidan, foi extraído do hino nacional, cujo título afirma: “A Ucrânia ainda não morreu”.

A julgar pelo sucesso da mobilização social pela adesão à União Europeia e contra o governo, tido como pró-Rússia, uma nova Ucrânia está, na realidade, prestes a nascer. Isso ocorre porque, por trás dos protestos que exigem a assinatura do acordo de associação comercial do país com o bloco europeu, os manifestantes trazem consigo a convicção de que é preciso construir uma nova nação.

Independentes desde 1991, os ucranianos agora lutam por mais soberania em relação à Rússia e aos oligarcas do poder. Segundo maior país da Europa em superfície, a Ucrânia esteve sob forte influência de Moscou durante o período soviético. Nessa época, vigorava a Doutrina Brejnev – política externa da União Soviética segundo a qual países do bloco socialista não poderiam abandonar o Pacto de Varsóvia.

Em agosto de 1991, 90,5% da população confirmou, em referendo, a independência, em meio ao desmoronamento do império soviético. Após quase 23 anos, a população ucraniana está mais uma vez nas ruas, agora para reivindicar mais distância da Rússia, de Vladimir Putin, e também mais poder frente aos oligarcas que governaram o país nas últimas duas décadas.

Centenas de pessoas passam as noites em barracas de campanha montadas a céu aberto, com uma temperatura que de madrugada pode chegar a 20ºC negativos. Ali, dormem, alimentam-se, tomam banho, participam de comícios políticos, de orações e, sempre que necessário, mobilizam-se para defender a praça do risco de invasão pelas forças de ordem, patrulhando barricadas ao longo das madrugadas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.