Policiais e manifestantes entraram em confronto hoje no centro da capital da Tunísia, Túnis. Pelo menos cinco pessoas foram mortas por disparos na capital, informou a Agência Ansa, citando a emissora de televisão Al-Jazira. Os protestos violentos já se estendem há quase um mês e representam o mais sério desafio ao autocrático presidente Zine El Abidine, que há duas décadas governa o país com mão de ferro.

Horas depois, o governo tunisiano impôs um toque de recolher na capital e em seu entorno. O exército tunisiano também ocupou a cidade de Sfax. O governo afirmou que o toque de recolher valerá das 20 horas às 6 horas (hora local). Ações desse tipo são bastante raras nesse país em geral estável do norte africano. Na cidade de Douz, no centro do país, outras duas pessoas foram mortas, disse uma testemunha.

A polícia usou gás lacrimogêneo contra centenas de manifestantes no principal cruzamento da capital, fazendo com que as pessoas se dispersassem pelas ruas próximas. O comércio na área foi fechado. Dois veículos blindados foram colocados no cruzamento, que fica nas proximidades da embaixada da França. Veículos militares patrulhavam os bairros mais distantes da capital e o governo ordenou que o Exército se certifique que o toque de recolher seja obedecido.

Em outro bairro da capital, centenas de manifestantes tentaram chegar ao escritório regional do governo, mas foram impedidos pela polícia. A polícia cercou um grupo de pessoas que tentava sair da sede de um sindicato nacional, também na capital. Os confrontos tiveram início horas depois de o ministro do Interior, Rafik Belhaj Kacem, ter sido demitido. A medida intensificou a sensação de incerteza e levantou questões sobre qual será a próxima ação do presidente Zine El Abidine.

Os protestos contra o desemprego e a corrupção na Tunísia tiveram início depois que um jovem se matou e se espalharam após as informações sobre os distúrbios serem divulgadas pelas redes sociais, como o Facebook, apesar do controle sobre a mídia. O jovem Mohammed Bouazidi Samir, que tinha diploma universitário, não encontrava trabalho e vendia legumes e frutas pelas ruas da cidade de Sidi Bouzaine, sem licença para tal. A polícia confiscou a mercadoria e em 17 de dezembro Samir ateou fogo a si próprio. Seu suicídio já foi imitado por pelo menos cinco jovens.

Exterior

“Estamos preocupados com os distúrbios e a instabilidade e com o que parecem ser preocupações fundamentais das pessoas que estão protestando”, disse a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, em entrevista em Dubai à emissora de televisão Al-Jazira, segundo transcrição fornecida pelo Departamento de Estado.

“Parece que foi uma combinação de manifestações econômicas e políticas com a reação do governo, que infelizmente levou à morte de alguns manifestantes. Não estamos tomando partido, apenas esperamos que ocorra uma solução pacífica”, disse Hillary. Os Estados Unidos consideram a Tunísia um importante aliado na luta contra grupos terroristas islâmicos, que, segundo Ben Ali, ameaçam constantemente seu país.

Não há indicações da participação de militantes islâmicos nos distúrbios, mas o Ministério de Relações Exteriores da Dinamarca disse hoje que há risco de ataques terroristas contra alvos ocidentais na Tunísia. O governo da Alemanha emitiu um comunicado advertindo sobre o “perigo de sequestros e ataques” e a Espanha emitiu um alerta de viagem, pedindo que seus cidadãos evitem o interior da Tunísia e sejam cuidadosos em áreas ao longo da costa. As informações são da Associated Press, Dow Jones e Agência Ansa.