Professores e pais devem estar atentos aos primeiros diagnósticos de um possível transtorno.

Dislexia, discalculia, disgrafia. Estes, entre outros transtornos, podem ser o diagnóstico da grande dificuldade que uma criança tem em aprender. São os chamados transtornos de aprendizagem que atrapalham a atenção, a memória e a aquisição das informações. Há alguns anos, não conseguindo lidar com o problema, pais, professores e demais profissionais deixavam ?passar batido?. Atualmente, os educadores estão mais capacitados, assim como os pais estão mais atentos e dispostos aos diagnósticos e tratamentos.  

Como explica a psicóloga e pedagoga Luciene Batisti, quando o assunto é aprendizagem, há diferença entre dificuldades e transtornos. ?As dificuldades podem acontecer por vários motivos como inadaptação da criança ao método. Portanto, as dificuldades podem ser circunstanciais. Já o transtorno é de origem neurológica, é um atraso no nível mental, ou seja, uma ?doença?. Requer cuidados e tratamentos específicos?, afirma.

Aliocha Maurício/O Estado
Nas escolas muitos estudantes têm problemas de concentração.

Por dislexia entende-se problemas com a leitura. discalculia é o transtorno relacionado às habilidades matemáticas. Já a disgrafia acontece quando as dificuldades acentuadas aparecem na aquisição e desenvolvimento da escrita. Estes, segundo Luciene, não são os únicos problemas e nem todos os transtornos de aprendizagem têm a mesma causa. ?Infelizmente, depende de cada caso para saber o que fazer. São várias as dificuldades que a criança apresenta diante dos distúrbios. Cada criança reage a essa doença de forma diferente. Os transtornos aparecem em graus, dependendo do déficit e da carga emocional de cada criança?, esclarece a psicóloga.

A hiperatividade também aparece entre os transtornos de aprendizagem. No entanto, como afirma o neuropediatra Antônio Carlos de Farias, nem todas as crianças hiperativas têm problema de aprendizagem. Apenas de 20% a 30% das crianças com hiperatividade têm problemas na aprendizagem, a maioria apresenta apenas problemas de comportamento. ?O importante é, assim que identificado o problema, avaliar dentro dos transtornos de qual situação se trata. Primeiro é preciso verificar se a criança tem nível de inteligência normal, se enxerga, se escute bem?, explica.

Ainda segundo Farias, muitos problemas cognitivos vêm associados a problemas comportamentais e vice-e-versa. Um exemplo citado pelo pediatra é o das crianças com transtorno bipolar. De 2% a 3% desses casos apresentam transtornos de aprendizagem. Para concluir, o médico afirma que transtorno de aprendizagem ?é um guarda-chuva de situações médicas e não-médicas. ?São várias as situações. A avaliação é necessária para verificar a real necessidade da criança. Importante é saber que existem vários tratamentos alguns envolvem medicamentos para atenção, mas principalmente se trata de reabilitação, ou seja, mudar o caminho para chegar ao aprendizado e que mesmo com transtorno a criança tem potencial para aprender?, conclui Farias.

Casos de hiperatividade são comuns

Pais bastante atentos podem perceber esses problemas. No entanto, normalmente é na escola que estes transtornos são detectados. A professora verifica que determinada criança não acompanha as demais. ?O que acontece é que os professores estão mais antenados. Eles podem não saber o que a criança tem, mas sabem que há algo. Enquanto pai, a gente sempre acredita que o filho vai superar as dificuldades. Porém acredito que hoje os pais estão mais conscientes?, completa a psicóloga Luciene Batisti.

A pedagoga do Colégio Municipal Nivaldo Braga, Silvani Artoff, afirma que o transtorno mais comum nas escolas são os casos de hiperatividade, que interferem na aprendizagem. Segundo ela, as crianças não conseguem se concentrar, são muito inquietas e se movimentam o tempo todo.

Segundo ela, para cada 20 casos levantados em sala de aula, 20 se comprovam na avaliação. Na sala do pré-III, entre os 25 alunos, estão quatro hiperativos.

A professora consegue, com apoio da escola e da Secretaria Municipal de Educação, lidar com o problema.

De acordo com a pedagoga, identificado o problema, a escola entra em contato com a família e encaminha o aluno para a avaliação psico-educacional. ?É preciso chegar ao diagnóstico, pela avaliação multidisciplinar, para então definir o tratamento. Para isso, pai e escola juntos devem assumir um compromisso?, afirma. Para a diretora Silvana Góes, aos poucos a escola e os professores estão se capacitando para lidar com a diversidade. (NF)

Praticando uma educação inclusiva

Aliocha Maurício/O Estado
Carmen Lúcia, Silvani Rodrigues, Iaskara Maria e Silvana Góes observam o problema nas escolas.

Saber lidar com os alunos com transtorno de aprendizagem é colocar em prática a política de educação inclusiva. Segundo a coordenadora de atendimento às necessidade especiais da Secretaria Municipal de Educação, Iaskara Maria Abrão, quando o assunto é inclusão, Curitiba já é referência. Atualmente, na rede municipal de educação, são 1.128 alunos com necessidades educacionais especiais, desses, 518 têm transtorno de aprendizagem. Muitos deles apresentam ?conduta típica?, ou seja, diversos transtornos neurológicos. ?Além dos alunos com hiperatividade, que é o caso mais comum, atendemos alunos com autismo, esquizofrenia, transtorno bipolar, psicose. E por outro lado, também atendemos os que são superdotados?, explica.

Segundo Iaskara, Curitiba é referência nacional em inclusão. ?Somos (Rede Municipal de Educação) responsáveis pela capacitação de todos os profissionais da rede pública municipal, estadual e da rede particular de Curitiba e região. Para isso desenvolvemos diversas ações, principalmente seminários durante todo o ano?, afirma.

Especificamente para atender os casos de hiperatividade encontrados na rede municipal, a Secretaria de Educação desenvolveu uma parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Hospital de Clínicas (HC) de Curitiba. Com uma equipe multidisciplinar de psicólogos, pedagogos, fonoaudiólogos, neuropediatras e outros profissionais, o projeto desenvolve atividades com 317 crianças hiperativas, com dificuldade de aprendizagem. O mesmo projeto, segundo Iaskara, capacitou 800 professores e pedagogos desses alunos com orientações sobre o problema e como atuar, e 317 casais de pais. O programa começou em 2005 e continua.

?Depois que veio a questão da inclusão, percebemos que é irreversível. Vamos ter que lidar com as diferenças e manter a criança bem atendida no ensino regular, principalmente com currículos adaptados e atividades extras?, conclui a coordenadora. Como lembra a gerente de apoio à inclusão, Carmem Lúcia Pellanda, esse suporte às escolas, ou seja, esse apoio da equipe pedagógica da Secretaria de Educação, é fundamental. Outro recurso, segundo ela, que ajuda a colocar em prática a inclusão são os projetos pedagógicos que cada escola teve que refazer. ?A escola, desta forma, assume e se prepara para atender a diversidade que chega?, afirma. (NF)