A variação do clima na Terra produz efeitos de diversas ordens na agricultura, nível de mares e outros ambientais. Assim como no planeta, o espaço também sofre com mudanças, pautadas não pelas diferenças de temperatura e umidade, mas sim de intensidade de correntes elétricas vindas de explosões ocorridas no Sol. As conseqüências diretas não se refletem tanto na superfície terrestre, ao contrário, se concentram no espaço em que estão os satélites.

Os danos nos sistemas de observação vão de falhas de comunicação, sinais, sensores e computadores de bordo, o que tem aumentado os estudos sobre previsão e monitoramento do clima espacial. Hoje, os Estados Unidos desenvolvem um satélite de nome Stereo, que deve ser colocado em órbita entre 2004 e 2005, para obter dados com mais rapidez para evitar danos aos equipamentos.

O artefato mais confiável hoje é o Soho, situado a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, ou cinco vezes a distância entre o planeta e a Lua, capaz de enviar com uma hora de antecedência um alerta sobre uma tempestade eletromagnética. O objetivo dos pesquisadores é justamente diminuir esse tempo com equipamentos mais potentes e precisos.

O Brasil participa, ao lado da Rússia e dos EUA, em um programa de monitoramento para o lançamento de um pequeno satélite que ficaria em uma órbita diferente da do Soho. Enquanto este percorre uma órbita vertical entre a Terra e o Sol, aquele faria uma elipse transversal no sentido da reta entre os dois astros, o que permitiria obter informações diferenciadas que complementariam os dados fornecidos pelo satélite norte-americano.

Outro projeto em estudo pelo país é a instalação de um Observatório Espacial do Sul, localizado em Santa Maria (RS) para observação de muns, ou partículas emitidas pelas tempestades eletromagnéticas e raios cósmicos solares. Os objetos são considerados indicadores de uma possível tempestade, e associado a outros meios de observação aumentariam para nove horas o período para aviso de um fenômeno. Mesmo assim, o coordenador dos projetos de satélites científicos e de clima espacial do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Walter Demétrio Gonçalvez Alarcon, é cauteloso. Para ele, a confiabilidade no mecanismo não é a mesma de um satélite, que observa as variações no espaço.

Alarcon diz que além do caráter científico e financeiro, o estudo das tempestades eletromagnéticas é necessário por um outro motivo: a presença do homem no espaço, como na Estação Espacial Internacional (EEI), que leva estudiosos a bordo. Na ocorrência de um aviso sobre o evento, a atitude a ser tomada seria o deslocamento para um local protegido das radiações. ?No caso dos satélites, os danos podem ser minimizados desligando-se partes do sistema?, aponta o pesquisador.

As tempestades eletromagnéticas são formadas pela expansão de matéria no Sol, que causam ejeção de material e geram correntes elétricas que afetam o campo eletromagnético da Terra. Os impactos são maiores de acordo com o epicentro do fenômeno. Quanto mais próximo à linha do Equador referente ao Sol, maior a possibilidade danos os equipamentos que gravitam na órbita da Terra.

Segundo Alarcon, os satélites que passam pela América do Sul estão mais suscetíveis a problemas com as tempestades. O motivo é a anomalia magnética do Atlântico Sul, que permite que as partículas energéticas emitidas pelos eventos entrem com mais facilidade na região. O desprendimento de massa coronal (superfície do Sol) foram uma das responsáveis por interferências no BrasilSat 5, que em 2000 deixou de funcionar devido à alta dosagem de radiação proveniente do espaço.

Outro efeitos do evento climático espacial, que pode durar de três a quatro horas até alguns dias, é o arrasto de satélites. ?O meio fica mais denso, e por causa do atrito os satélites podem perder a órbita?, explica o coordenador. De acordo com ele, foi esse um dos motivo da queda do laboratório de estudos norte-americano Skylab, em 1979. Em relação ao satélite de sensoriamento remoto Brasil/China CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite / Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), Alarcon acredita que uma tempestade geraria grandes perdas no sistema.

Embora as conseqüências da radiação eletromagnética estejam centradas no ambiente de clima espacial (a partir de 100 km da superfície da Terra ? o metereológico abrange os primeiros 15 km), os efeitos também atingem linhas de alta tensão, sensíveis à indução eletromagnética e sinais para navegação. ?Tem sido estudados efeitos de que as tempestades poderiam causar pequenas glaciações de 200 em 200 ou 300 anos?, observa.

A possibilidades e os danos estão diretamente ligados à intensidade das tempestades, que vão das fracas às muito fortes. A maior já registrada ocorreu em 1859, com emissão de energia três vezes maior que a segunda no ranking, acontecida em 1989, que impediu o funcionamento de usinas nucleares nos EUA. Transposto para os dias de hoje, o evento faria com que Estados Unidos e Europa, situados em latitudes altas, onde se concentram os efeitos, ficassem sem energia elétrica por semanas.

As mesmas regiões mais claras nas imagens de satélites, ora amareladas ou esverdeadas de acordo com o padrão de cor usado pelos pesquisadores, que indicam o local no Sol de onde se originam as ejeções de massa, são responsáveis por outro fenômeno envolvendo cores: as auroras austrais e boreais. ?São os eventos mais conhecidos e os indicadores mais fáceis de observar ligados à perturbação na magnetosfera?, diz Alarcon. Em 1989, auroras vermelhas despontaram nos céus da Argentina. (Fabiana Vasconcelos)