Foto: Portos Casela/O Estado

Aprendi com Jorge Luiz Borges a pensar o mundo como se ele fosse uma biblioteca universal.

Aprendi com Jorge Luiz Borges a pensar o mundo como uma biblioteca universal. Também aprendi com ele que lemos livros reais e lemos livros ainda por escrever, imaginados com força tal que passam a existir.

No trabalho docente, somos argüidos a cada instante sobre bibliografias. Pais querem saber o que comprar e, maravilha das maravilhas, o que ler para seus filhos. Escolas solicitam indicação de livros para suas bibliotecas e para a capacitação de professores. Colegas querem saber novidades e buscam um intercâmbio frutífero de indicações bibliográficas, que acrescem o ambiente acadêmico. Mais constante, e em proporção avassaladora, é o pedido dos alunos, pressionados por trabalhos, pesquisas e provas. Encurralados em corredores e salas de aula, somos solicitados a, de supetão, enumerar uma bibliografia adequada aos assuntos os mais diversos, e, por vezes, extravagantes.

Muitas vezes, embutido nessa demanda está o desejo do livro completo, ideal, perfeito, escrito especialmente para a urgência daquele aluno em particular. Esse livro refaz, de modo disforme, um anseio absoluto e utópico de origem mallarmaica. Mallarmé, poeta francês de vanguarda, passou a vida acreditando em e ansiando por escrever Le Livre, o livro que concretizaria o mais inatingível dos ideais, o livro impossível de ser escrito, a maior recompensa de qualquer escritor-aventureiro-revolucionário-desbravador, como ele.

Os alunos, porém, esmorecem à medida que enumeramos um, outro e mais um livro, que poderiam resolver as dúvidas deles. Observamos em seus olhos o avanço de espessa neblina, demonstrativa de sua frustração. Por que não indicamos apenas um livro? De preferência, aquele que habita a biblioteca escolar. De preferência, descomplicado e rápido de ler. Melhor ainda se for encontrável em uma página cibernética.

Diante dessa neblina constante e prevendo que livro algum será lido, duvido de toda erudição e, com rebeldia, me ponho a indagar por que não se escrevem livros estreitamente direcionados a responder em um só título às perguntas mais freqüentes e específicas de leitores reais? Por que os escritores, ao criarem seus textos, não pensam que as demandas dos leitores são pontuais, imediatistas, urgentes? Por que escrevem sempre partículas de assuntos ?

Para solucionar esse impasse, sugerirei alguns livros que, se escritos, poderão produzir leitores mais satisfeitos e, quem sabe, até transformar não-leitores em fiéis freqüentadores de obras escritas.

Arquimedes Antunes Paiva de Loyola Acryl escreveu uma estupenda enciclopédia de assuntos da atualidade urbana, intitulada Conviva (bem) com o seu tempo. Nela encontramos longos e profundos tratados sobre o cultivo de um corpo atlético, sem despender um movimento sequer, nem derrubar uma só gota de suor; também um minucioso guia alimentar somente com alimentos de caloria zero, embora ilustrado por montanhosos pratos de frituras e massas; um manual sobre atividades e endereços em que o interessado encontra meios de ganhar dinheiro sem trabalhar (aliás, quase sem trabalhar, porque é preciso ler e localizar os espaços para chegar ao fim almejado). Consta dessa enciclopédia uma lista de sites que reúnem as questões e respectivas respostas de todas as provas realizadas no Brasil nos últimos 10 anos, para poupar a qualquer estudante o desperdício de estudar aquilo que nunca nenhum professor irá perguntar.

Maria Clitmenestra Brichard Reaupt escreveu um livro sem igual sobre cognição e aprendizagem. Intitula-se Conhecer e aprender: rimas solúveis. Nele, a autora prova que ambas pertencem a campos de investigação sem existência real, criados pelo imaginário docente a fim de alimentar discussões infindáveis, sem resultado prático algum. Desmente a relação interativa entre ensinar e aprender, demonstrando que, na vida, nada se ensina, nada se aprende, apenas se imita.

Trilúsia Bonatritis da Silva e Urbini é autora de documentadíssima coleção de volumes sobre assuntos relacionados às artes, em especial à literatura, que denominou Artes do mundo das letras: e seu tempo. Traz análises literárias pertinentes da quase totalidade da literatura ocidental, além de alguns poucos escritores asiáticos, e até da Oceania. É o ponto forte de seu trabalho e poupa a todos os leitores curiosos de terem que ler os livros analisados. Como acréscimo, os volumes trazem indicações sobre filmes, peças teatrais, músicas, documentários, e a relação de inúmeros sites da internet, que têm relação próxima ou remota com os autores analisados. Publicação imperdível.

Carolíneo Astorges Licurgo de Almeida Truchs reuniu em cinco volumes de bom tamanho e peso uma coleção fantástica de frases, pensamentos, máximas, ditados e provérbios, utilíssimos como ornamentação de textos os mais variados, de discursos a obras de referência, passando por artigos de jornal. De modo condizente com o conteúdo, denominou sua obra Pensar e citar, eis a questão ! Esse material tem a apreciável vantagem da indicação das fontes, todas dentro das normas da ABNT.

A obra mais incrível é formada por 56 volumes de autoria de Bernardo Bernardet de Santiago Bertrand, intitulada Não passe em branco! São volumes altamente inovadores, pois em suas páginas em branco está incluído, de forma organizada, todo o conhecimento da humanidade compilado até o momento. Em edição barata e acessível, é obra mais do que indicada para diversos tipos de leitores: para os atarefados, os indolentes, os capazes de infinitas inferências, os de aparência intelectual, os analfabetos ou ágrafos. Segundo informação da editora, é um sucesso de vendas em vários países, mas bate todos os recordes no Brasil.

Cumpri, creio eu, mais uma vez a tarefa docente de indicar livros para atender as necessidades dos estudantes em busca de respostas. Reencontrei-me com a biblioteca universal. Boas leituras!