Fotos: João de Noronha/O Estado

Jovens atendem em casas do ramo ou em locais especiais.

Quem nunca ouviu falar que a profissão de prostituta é a mais antiga do mundo? O bordão popular não deixa de ter fundamento quando se faz uma viagem pela história. Em algumas civilizações antigas, a troca de sexo por bens materiais era prática comum à época da iniciação sexual das mulheres, quando elas atingiam a adolescência. No Egito antigo, as mulheres que se dedicavam a satisfazer as fantasias sexuais masculinas eram consideradas sagradas e ganhavam muitas oferendas. Na Grécia antiga e em Roma, elas eram mulheres refinadas e afortunadas, respeitadas dentro do contexto social.  

Porém, após a Idade Média, marcada pelo puritanismo, elas passaram a ser perseguidas, já que os prazeres da carne eram condenados pela Igreja Católica. Mesmo com a perseguição, elas sobreviveram e, passados vários séculos, hoje elas continuam exercendo a profissão com a mesma função: levar prazer a quem as procura.

Nos últimos trinta anos, marcados pela revolução feminina, elas ganharam maior poder enquanto classe e hoje têm uma data comemorativa: o Dia Internacional da Prostituta, comemorado no dia 2 de junho.

A data foi escolhida em homenagem a um grupo de 150 prostitutas que em 1975 fizeram um grande protesto em Lyon, na França, ocupando a igreja de Saint-Nizier, na luta contra multas e detenções. Elas foram duramente expulsas da igreja pela polícia, mas marcaram época pelo espírito de luta.

Sistemas

O valor de um programa pode variar entre R$ 5 e R$ 20.

A prostituição é encarada sob três prismas das leis. O abolicionismo, praticado no Brasil desde 1942, não reconhece a prostituição como profissão, mas como um sistema de vitimização: um terceiro – o agenciador – coage a mulher e fica com a maior parte dos lucros. Por isso, a legislação abolicionista pune o dono ou gerente de casa de prostituição e não a prostituta. Nesse sistema, quem está na ilegalidade é o empresário e não há qualquer proibição em relação a alguém negociar sexo e fantasiais sexuais.

Em países como a Alemanha, a Holanda e o Uruguai, a profissão é regulamentada e, entre as vantagens, a possibilidade de ter contrato de trabalho, seguridade social, inclusive aposentadoria.

Já alguns poucos países, como os Estados Unidos, praticam o sistema do proibicionismo. Ou seja, é ilegal prostituir-se e a pessoa que adere à prática pode ser presa.

Ministério

Apesar de não ser uma profissão regulamentada no Brasil, a prostituição aparece na Classificação Brasileira de Ocupações, sob o título de ?profissionais do sexo?. No site do Ministério do Trabalho e Emprego (www.mte.gov.br), a definição sumária da atividade é a seguinte: ?Profissionais do sexo batalham programas sexuais em locais privados, vias públicas e garimpos; atendem e acompanham clientes homens e mulheres, de orientações sexuais diversas; administram orçamentos individuais e familiares; promovem a organização da categoria; realizam ações educativas no campo da sexualidade; propagandeiam os serviços prestados. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minimizam as vulnerabilidades da profissão?.

Sonho de se tornar uma advogada

Roberta, 24 anos, tem um jeito falante e comunicativo. E tem objetivos claros na vida: quer cursar Direito e garantir o futuro na área jurídica. Enquanto não consegue voltar à faculdade, ela trabalha duro para juntar o dinheiro que a ajuda a sustentar um filho e vai auxiliá-la na realização do sonho de ser advogada.

O Estado – Como você se tornou garota de programa?

Roberta – Foi há um ano, quando me separei, depois de cinco anos casada. Fui morar com minha mãe e perdi o meu irmão, que nos ajudava. Surgiu a oportunidade e comecei a fazer, para sustentar a casa. Hoje sustento a casa e guardo a maior parte.

O Estado – E você consegue economizar bastante?

Roberta – Tiro em média R$ 4 mil em três semanas de trabalho, de segunda a sexta. Desse dinheiro, guardo R$ 3 mil e gasto R$ 1 mil  para me manter e cuidar do visual, que para nós é fundamental. Já tenho a minha casa e agora quero voltar para a faculdade.

O Estado – Quanto você tira por programa?

Roberta – Depende do cliente. Certa vez ganhei R$ 1 mil  para passar o dia com um homem, mas só conversamos. Tem muito cliente que nos procura por carência, porque não têm com quem conversar. Outras vezes o cliente nos procura porque não pode realizar as fantasias com a esposa, porque ela não quer ou por machismo.

O Estado – Por que as garotas de programa não beijam a boca dos clientes?

Roberta – Aquela história de não querer se envolver é verdadeira. Pelo menos para mim, o beijo na boca é algo mais íntimo que a relação em si. Por isso, prefiro não beijar. Já aconteceu de, no clima, rolar. Mas eu evito.

O Estado – Qual o lado ruim da profissão?

Roberta – Em 80% dos casos, o cliente só quer o meu corpo. No início, era estranho encarar a coisa dessa forma, sendo um objeto. Mas acabei me acostumando e hoje encaro como uma troca de sexo por dinheiro.

O Estado – Você já passou algum constrangimento?

Roberta – Uma vez um cliente tirou uma nota de R$ 2 da carteira e disse que era aquilo que ia me pagar porque era aquilo que eu valia. Foi terrível, porque a gente se sente usada, desvalorizada.

O Estado – Você pretende sair dessa vida?

Roberta – Tenho projetos traçados. Devo ficar por mais um ano fazendo programa e depois voltar para a faculdade de Direito. Não tenho e nunca tive preconceito em relação a profissão, tanto é que não escondo de ninguém o que faço. Mas tenho objetivos maiores para minha vida.

Profissionalismo acima de tudo

Quem vê a jovem Eduarda, sorriso tímido, andando na rua, dificilmente imagina que ela é capaz de satisfazer as fantasias de homens de todas as idades. Mas quando assume o posto de acompanhante, ela veste a camisa do profissionalismo e não se furta em dizer que o interresse pela profissão é o dinheiro que ele proporciona.

O Estado – Como você começou a fazer programas?

Eduarda – Eu era casada desde os 16 anos e quando me separei, com 20 anos, fui morar com minha mãe. Estávamos desempregadas e quando surgiu a oportunidade de trabalhar com isso, aceitei e comecei a sustentar a casa. Minha mãe, que faleceu no ano passado, nunca soube. Aliás, prefiro que ninguém saiba, pois tenho medo de perder as minhas filhas (uma menina de 9 e outra de 3 anos).

O Estado – E como foi o primeiro programa?

Eduarda – Foi horrível. Eu só tinha mantido relações sexuais com um homem até então: o meu marido. No primeiro dia na casa, tive que encarar três casais. A idéia era satisfazer a todos. Mas não consegui. Tive uma crise de choro e a gerente teve que me tirar do quarto. A segunda vez foi convencional, com um homem e deu tudo certo. Com o tempo, fui me acostumando.

O Estado – O que tem de pior na profissão?

Eduarda – Meu maior medo é de doenças. Nós sempre usamos preservativos e quando o cliente não aceita, eu não faço. Porque é muito suspeito um homem querer transar com uma garota de programa sem se cuidar. Também é horrível quando o cliente acha que, porque está pagando, pode tudo. Não é bem assim. Outra coisa que não dá é cliente fedorento, que se recusa a tomar banho. É difícil de encarar.

O Estado – E o lado bom?

Eduarda – É o lado financeiro. Nunca coloquei na ponta do lápis o que ganho, mas em alguns casos já ganhei R$ 1 mil em 7 horas. Em outras ocasiões, R$ 600 ou R$ 400. Varia muito. Mas dá para viver e ainda guardar dinheiro e guardar para o futuro.

O Estado – Por falar em futuro, o que você pensa do seu? Já pensou em largar a profissão?

Eduarda – Não só pensei como larguei e fui trabalhar de vendedora, numa loja próxima à casa. Fui visitar as colegas e de cara já recebi uma proposta de R$ 400, que era o meu salário do mês na loja. Larguei e voltei para a vida. Mas não sei o que vou fazer quando acabar.

O Estado – Você tem namorado?

Eduarda – Tenho um novo namorado há três meses, que conheci aqui. Como ele já sabe da minha profissão, tenta levar numa boa, mas já sente mais ciúmes agora. Mas ele me conheceu assim e tem que confiar no que sinto por ele.

Questão passa pelo aspecto social, financeiro e psicológico

A idéia de fazer sexo por dinheiro e não por prazer, sem envolvimento afetivo e tornando o ato em si um comércio, pode parecer estranha para a maioria da população. Seja por valores da sociedade, seja pela percepção romântica do ato sexual. Ainda mais levando-se em conta que, na maioria das vezes, as prostitutas fazem negócio com homens desconhecidos, com alta rotatividade.

A prostituição é uma questão ampla, que passa pelo aspecto social, financeiro e psicológico. O que leva uma mulher a fazer sexo em troca de dinheiro?

Segundo a presidente do Grupo Liberdade, Carmen Costa, a maioria das meninas se motiva por questões financeiras. ?Geralmente a mulher passa a se prostituir para não deixar faltar dinheiro em casa. Tanto que tem muitas mulheres casadas que são garotas de programa?, explica.

Com essa afirmação, entende-se porque a prostituição tem índices altos no Brasil, país marcado pelo desemprego e pela desvalorização do trabalhador. ?Sem oportunidades, a prostituição se torna uma opção. Eu sustentei minha casa e dois filhos com o dinheiro que ganhei nas ruas. Não tenho vergonha de dizer isso?, diz Carmen, que se prostitui por 26 anos em Curitiba.

Pirâmide

Como em toda a profissão, a prostituição tem uma pirâmide de status, mas não existe uma tabela específica de remuneração. Em Curitiba, as garotas de programa que ficam nas ruas costumam cobrar de R$ 5 a R$ 20, dependendo do cliente. Já as que trabalham em casas especializadas têm ganhos maiores, que chegam a R$ 1 mil.