Os sem-terra do Paraguai, conhecidos como carperos, vão suspender por uma semana a invasão de terras produtivas de brasileiros na região do Alto Paraná, na fronteira do país com o Brasil. Em assembleia de cerca de três horas, realizada na noite deste sábado, os campesinos decidiram dar uma trégua e aguardar uma solução do governo paraguaio, como solicitado pelo presidente Fernando Lugo. “Vamos permanecer no acampamento durante essa semana para que o governo solucione o problema do assentamento”, disse um dos líderes do movimento, Federico Ayala, em entrevista por telefone à Agência Estado.

“Esperamos que o governo nos dê uma resposta favorável para que tenhamos uma permissão escrita para ocupação destas terras, onde nos encontramos”, detalhou. “Nosso pedido é para que o governo exija a devolução ao Estado de 167 mil hectares ocupados ilegalmente pelos brasileiros”, afirmou Ayala, referindo-se aos produtores brasileiros e descendentes de brasileiros instalados na região, chamados de “brasiguaios”.

Na última quarta-feira, os sem-terra invadiram propriedades rurais localizadas no município de Ñacunday, e ameaçavam avançar em fazendas de Santa Rosada de Monday e Iruña, para forçar os brasiguaios a abandonarem suas terras.

“O governo se comprometeu a pedir aos estrangeiros os títulos de propriedade para verificar se são autênticos e vamos esperar que essa verificação seja realizada na próxima semana”, disse Ayala. Os sem-terra defendem a revisão dos títulos das propriedades rurais adquiridas nos últimos 40 anos. O processo envolveria cerca de 10 mil produtores rurais brasileiros que possuem terras na região. Para os sem-terra, as fazendas foram adquiridas ilegalmente.

Legalidade

Após encontro, semana passada, com os carperos, o presidente Fernando Lugo analisou a situação com seus principais ministros e assessores relacionados à questão agrária em reunião na manhã deste sábado, na residência oficial, em Assunção. Ao fim do encontro, o ministro-chefe do Gabinete Civil, Miguel López Perito, informou que o presidente fará um pronunciamento sobre o conflito nesta segunda-feira. López Perito antecipou que a solução ocorrerá dentro da lei.

A atitude do governo não foi suficiente para acalmar os brasileiros ameaçados pela invasão. “A promessa tranquilizará na medida em que for efetiva. Se só fala e não faz, não resolve nada”, disse à Agência Estado o gerente-geral da Cooperativa de Produtores de Naranjal (Copronar), com sede a 50 quilômetros de Santa Rosa de Monday, Sergio Luis Senn. Os brasiguaios representam 85% dos produtores da cooperativa.

“O governo disse que irá tratar do assunto respeitando a legalidade e que vai cumprir a ordem legal de desalojar os carperos que invadiram as terras dos brasiguaios, mas para isso pediu tempo e isso gera apreensão”, afirmou. “Não sabemos se esse prazo pedido para cumprir a lei é somente uma manobra para ganhar tempo ou se é mesmo para fazer o levantamento da situação na região”, emendou.