A afirmação, que pode ser lida nos pára-choques dos caminhões, lembra a necessidade acelerada de transporte das safras agrícolas em determinadas épocas do ano. Esses momentos, que trazem o equilíbrio das contas domésticas pelo acréscimo financeiro, podem trazer maior consumo de rebite para o transporte não parar.

Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Saúde Pública da USP, com 43 motoristas de caminhão que rodam pelas estradas brasileiras, revelou que 83,3% dos consultados admitiram que costumam apelar às anfetaminas para conseguir se manter acordados no volante. Com elas, os motoristas de longa distância conseguem trabalhar até 60 horas por semana, contra 44 horas dos que dirigem nas áreas urbanas e não usam drogas. A média de comprimidos chega a 50 por mês para cada motorista, mais de uma pílula por dia. (Abdetran – Associação Brasileira de Departamentos Estaduais de Trânsito, 2002)

A droga

O ex-caminhoneiro Adenir da Silva, que rodou o Brasil de caminhão por 15 anos, conta sobre a primeira vez que utilizou rebite: “Dali a meia hora tive que encostar e dormir. Quando olhei o relógio, tinha dormido 40 minutos e estava esperto. Canseira, dor, saiu tudo. Um dia vi várias pessoas de branco velando um morto na estrada. Freei o caminhão e meu colega disse: o que foi? Respondi. Não posso passar por cima dessa gente. Mas não tinha nada.”

Joaquim e Celina Monte, médico psiquiatra e psicóloga clínica da Clineuro – Clínica do Sistema Nervoso de Curitiba – explicam que isso ocorre porque “a anfetamina estimula a atividade do sistema nervoso central, faz com que o cérebro trabalhe depressa, deixando o usuário e os demais motoristas em perigo: a anfetamina corta o sono e mascara o cansaço. Não supre as necessidades do corpo e da mente. Diminui a concentração, os reflexos e o raciocínio, prejudicando o controle dos impulsos e comprometendo a capacidade de dirigir com segurança.”

Efeitos

Desaparecendo o efeito inicial, o motorista é tentado a continuar seu uso em doses maiores. “O organismo deixa de produzir endorfinas e entra em colapso se a droga falta. O estômago e o intestino entram em pane, causando dores abdominais, diarréia e vômito; o coração e a respiração ficam acelerados. Isso acontece porque o corpo passa a produzir noradrenalina em excesso. O organismo torna-se incapaz de regular a temperatura, e o viciado passa a suar muito e a sentir calafrios, dores de cabeça, boca seca, aumento da temperatura corpórea, desordens gastrointestinais, arritmia cardíaca, hipertensão, reações de ansiedade, psicose anfetamínica, síndrome de exaustão, depressão, alucinações, pensamentos paranóicos e convulsões”, explicam os profissionais.

Impotência sexual

Adenir da Silva, hoje motorista de táxi em Joaçaba (SC), comenta que quando aumentou a dose, começou a se sentir mal: “Vou dizer: a potência diminuiu dia a dia. Foi quando me separei… por causa disso, claro. O cara fica 30 dias fora, aí chega em casa, fica dois dias e não faz o “dever de casa”, a tendência é a mulher partir pra outro. Inclusive não reagi, não fiz nada… foi ela que foi embora, dei toda a razão pra ela, porque me dediquei só ao caminhão e deixei a mulher de lado. Depois começou problema no estômago. Eu sentava pra almoçar (…) comia um pouquinho e já me repugnava (…). Fui emagrecendo. Não dormia, não comia, fumava cigarro e viajava muito. Comecei a sentir problema na vista, por isso hoje uso óculos… minha vista enfraqueceu. Pode publicar isso. Inclusive me prontifico a dar palestras sobre o que ocorreu comigo.”

O médico psiquiatra Joaquim Monte e a psicóloga Celina Monte explicam as fases sentidas pelo corpo: “Depois do prazer inicial, vem a fase de evolução das alterações psicossomáticas, denominada disforia anfetamínica. A indiferença sexual é o inicio do processo que evolui para o comprometimento sexual mais grave. Na fase seguinte, da alucinose anfetamínica, acentua-se a indiferença sexual. Os rebites causam danos sérios nos tecidos corporais, produzem a dilatação que causa visão borrada na pupila dos olhos e prejudica os motoristas à noite pelos faróis em direção contrária”.

A saída

Os profissionais aconselham atacar o problema em três frentes: as empresas transportadoras devem aumentar seus prazos para que as viagens sejam menos desgastantes; os órgãos governamentais devem orientar e fiscalizar mais efetivamente quanto às horas trabalhadas e quanto ao comércio irregular de medicamentos que contém anfetamina; e os sindicatos e outras associações de caminhoneiros devem promover campanhas de conscientização sobre os riscos do consumo de drogas, estresse, promoção de qualidade de vida, alimentação, descanso, higiene. Muitos acidentes têm relação com o excesso de sonolência ou com o uso de estimulantes. Dormir é a melhor maneira de aliviar o cansaço, a fadiga e o sono.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, especialista em Mídia e Despertar da Consciência Crítica, e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná E-mail: zeliabonamigo@uol.com.br