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Revista narra vida de José Loureiro Fernandes

  • Por Jornalista Externo

José Loureiro experimenta mel retirado de um tronco de árvore. Serra dos Dourados, 1958. Arquivo do Cepa- UFPR.

O centro de estudos e pesquisas arqueológicas da UFPR-Universidade Federal do Paraná lançou o terceiro volume especial de sua revista Arqueologia, Anais do seminário comemorativo do centenário de nascimento do professor doutor José Loureiro Ascenção Fernandes, recheada de depoimentos daqueles que o conheceram pessoalmente ou através de suas obras e que estão aqui sintetizados.

Seu organizador, o professor arqueólogo dr. Igor Chmyz, com 20 anos de convivência com Loureiro, atesta que na biblioteca do Cepa-Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná existem 54 títulos produzidos por ele, mas que a produção mais instigante está em documentos não publicados, arquivados em diversas instituições.

Nascimento. Relata Márcia Scholz de A. Kersten que ele nasceu em Lisboa, em março de 1903, foi registrado no Consulado Brasileiro, pois seus pais, portugueses, residiam no Brasil. Médico por formação, buscou aperfeiçoar-se em Antropologia e Etnologia.

Porte físico e personalidade. Oldemar Blasi indica: era pessoa de estatura mediana, calvo, agitado e trajava, quase sempre, roupa escura (…). Tinha extraordinária capacidade de comunicação e profunda erudição. Cecília M. Westphalen considera que sua personalidade é a do entusiasmado animador cultural (…) que supre a ausência de recursos e de condições.

José Loureiro e a causa indígena. Descreve Constantino Comminos que quando o Departamento de Antropologia já se encontrava instalado no 6.º andar da UFPR (…) o dr. Loureiro levou o professor Antônio Rubbo Muller, de São Paulo (…), para ver o mapa que ele tinha montado em vidro blindex e disse: ?Aqui nós vamos colocar todos os grupos étnicos do mundo, para saber onde se encontram e facilitar o entendimento dos estudos antropológicos em uma visão globalizada?.

Duas ações entre os xetás foram de importância significativa, segundo Carmen Lucia da Silva, ?a primeira, no campo da política indigenista, ocasião em que buscou junto aos órgãos do governo federal e federado, chamar a atenção para as atrocidades praticadas contra os xetás, além de reivindicar destes, a destinação e demarcação do território tradicional do grupo. A segunda atuação é marcada por seu empenho pessoal e acadêmico no sentido de gestionar recursos para (…) pesquisas?..

Loureiro e a arqueologia. M. Fernanda C. Maranhão ressalta que também a arqueologia recebeu a dedicação do Loureiro Fernandes. Exemplos são o Museu de Arqueologia e Artes Populares e o Cepa. Arthur Barthelmess refere-se a um sitio arqueológico no vale do Rio Ivaí, no qual com a orientação de Loureiro encontraram fragmentos de peças de cerâmica de época anterior ao contato com os jesuítas.

O professor. Zulmara C. Sauner Posse ressalta que a paixão com que falava contagiava a todos, não deixando espaço para conversas paralelas entre os alunos. O silêncio se mantinha, não por medo, mas por admiração e respeito. ?Por suas vez o interesse pela interdisciplinaridade promoveu, apesar das dificuldades, cursos de ciências correlatas com a arqueologia, foi considerado como o homem que abria caminhos entre as pedras.?

M. Tarcisa Silva Bega lembra que Loureiro compôs a banca na defesa de tese do professor Octávio Ianni. João José Bigarella conta que ele levava seus alunos e outras pessoas interessadas em excursões de campo, ?propiciando a todos um contato importantíssimo que incentivava o aprendizado prático e o conhecimento in loco dos assuntos abordados?.

Médico e estimulador do bem. ?Embora médico, liderou o desenvolvimento de estudos antropológicos, lembra Aryon Dall?Igna Rodrigues. Rudolf Bruno Lange expôs que ele conseguia as coisas para ajudar as outras pessoas, como os medicamentos que ele levava para Sambaqui, por telefone, pois o museu paranaense não tinha condução?. E Jesus Santiago Moure acrescenta que ele foi ?uma espécie de alma dentro da sociedade paranaense por estimular uma porção de ações extremamente importantes (…), como a UFPR?.

O pesquisador. Maria Regina Furtado enfatiza a viabilização do porão da sua residência para que o CEB-Círculo de Estudos Bandeirantes pudesse desenvolver pesquisa em ciências humanas. O endereço, Rua XV de novembro 1050, sede definitiva do CEB tornou-se também seu local de trabalho ao se aposentar como professor catedrático da UFPR. Resume:?… o fato é que Loureiro estava, comprovadamente, adiante do seu tempo. Poucos alcançaram o seu ritmo de trabalho e muitos não atingiam, de imediato, a essência refinada da sua ácida e crítica retórica?.

Na doença. João C. Gomes Chmyz informa que mesmo após ter sofrido um derrame e ter dificuldades para caminhar, um dia em que o carro atolou e seu tempo para os trabalhos era pequeno, seguiu a pé. Sobre seus últimos tempos, comunica a bibliotecária Regina M. de Campos Rocha que ?jamais usou de sua debilidade física para conseguir favores ou atenções especiais. Nunca perdeu o entusiasmo, e manteve até o fim de sua vida o poder de indignar-se…?

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
zeliabonamigo@uol.com.br

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