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Divaldo Franco: ?É um aprendizado, uma lei de progresso?.

Ao pé da letra, reencarnação significa tornar-se carne (matéria) novamente. Na doutrina espírita, o significado é muito mais profundo. Tema polêmico, já que trabalha na contramão da ressurreição, a reencarnação desperta muita curiosidade e por ser cercada de mistério e suposições, já inspirou muitos filmes, peças de teatro e especialmente obras literárias, a maioria fruto do trabalho psicográfico dos seguidores do espiritismo.

O médium Divaldo Pereira Franco é considerado uma das maiores referências do espiritismo no Brasil. Ele já psicografou 196 livros, muitos deles com indicações fortes sobre o tema. Para Divaldo, a reencarnação é uma lei universal, que representa a evolução do espírito. ?Não há retrocesso. Um espírito pode estacionar, mas jamais desaprende, pois a sua missão é evoluir até que atinja a plenitude?, explica. Na prática, ele, que é professor por formação, compara a reencarnação aos níveis escolares. ?É um aprendizado, uma lei de progresso. Se a pessoa age para o mal numa vida, na outra ela terá que se reeducar?, diz.

Isso não significa necessariamente um castigo para os espíritas. Segundo a doutrina, a pessoa até pode levar para a vida seguinte reflexos da anterior, que não foram bem assimilados, mas tudo se revela na lei de ação e reação, que resulta no aprendizado e na evolução. ?Há uma co-relação entre uma vida e outra, mesmo que a pessoa não se lembre de nada. A vida atual é resultado dos atos da existência anterior?, acredita Divaldo.

Com base na teoria da reencarnação, os espíritas justificam o porquê das deficiências físicas ou tendências para o desenvolvimento de doenças graves. ?Pessoas que tiram a própria vida passam por um momento de sofrimento grande, mas como o amor de Deus é infinito, é dada uma nova chance de aprendizado em outra vivência.? Pelas fases de aprendizado, a reencarnação também explicaria os bolsões sociais que separam as pessoas entre ricos e pobres e também a sensação de déjà vu e simpatia entre as pessoas. ?A sensação de já ter vivido uma determinada situação ou de conhecer determinado local é típica. E a empatia ou antipatia entre as pessoas também. Muitas vezes inimigos de outras vivências nos causam antipatia, que ficamos perguntando de onde vem?, diz.

Aliás, a questão de possuir uma nova chance para vencer problemas de relacionamentos das vidas anteriores é outro preceito da reencarnação. ?Muitas vezes vivemos num mesmo grupo por várias encarnações, pois esses espíritos passam pelo mesmo nível de aprendizado. Sempre temos algo a aprender ou ensinar.? As diferenças de personalidade e temperamento entre irmãos que têm a mesma criação numa família também são um forte argumento para explicar a reencarnação. ?O meio pode influenciar, mas a essência será do mesmo espírito, em evolução, passando por um aprendizado necessário.?

Para católicos, não há respaldo bíblico para a teoria

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Padre Élcio: ?A vida é como um prêmio de Deus, não uma tarefa a ser cumprida ou conquistada?.

A Igreja Católica costuma ser direta quando o assunto é reencarnação. Simplesmente não acredita na teoria porque não há referência direta dela na Bíblia. A explicação dos católicos para a vida após a morte é a ressurreição, que é a elevação do espírito.

Segundo o padre Élcio Ribeiro, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, uma crença contradiz a outra, de modo que não podem andar juntas. ?O que as duas têm em comum é que se trata de questão de fé. Uma vez que a pessoa opta por uma das duas, tem que ter coerência de acreditar nela?, diz, evitando polemizar o tema e passando uma idéia totalmente democrática, mesmo que discordante. ?Não podemos provar a existência de um ressuscitado nem de um reencarnado. É a fé que sustenta.?

No conceito de ressurreição, existe apenas uma vida, à qual Deus dá o sentido. ?A vida é como um prêmio de Deus, não uma tarefa a ser cumprida ou conquistada. Entregamos a vida do além a Ele, sem temor do Divino.? Os católicos crêem que, após a morte, Deus ressuscita a todos, em sua misericórdia.

Para o padre, a reencarnação é uma idéia mais consoladora porque dá a certeza às pessoas que acreditam nela de que vão poder voltar, corrigir os erros. ?É uma teoria de auto-suficiência, na qual o próprio espírito se aperfeiçoa, através do próprio esforço.? Outro aspecto que os católicos questionam quanto ao tema é o castigo que as pessoas que teriam pecado em outra vida têm que pagar na seguinte. ?Se existe castigo, pressupõe-se que as divindades são vingativas. Deus é misericordioso. O castigo é provocado pelo próprio homem, que não respeita aos próximos.? Em resumo, para os católicos, a explicação para os abismos sociais, a fome, a miséria e a doença estaria na ação humana através do mal, não de uma represália divina.

Para o padre, o que deu fortalecimento à teoria da reencarnação foi a ligação dela à teoria evolucionista, sob alegação de que o mundo cristão seria estático, mas ele defende a dinâmica cristã. ?O mundo sob o ponto de vista católico é dinâmico e se manifesta no crescimento de Deus.? (GR)

Budistas defendem que a mente carrega cicatrizes

Os budistas tibetanos têm uma crença relativamente próxima aos espíritas após a morte física. Porém, enquanto o espiritismo defende a reencarnação, o budismo prega o renascimento. A principal diferença entre uma e outra doutrina está na herança que se leva à nova vida.

Diferente dos espíritas, que acreditam que a pessoa vive várias vidas diferentes, os budistas acreditam que, ao renascer, a mente continua. ?Acreditamos em várias mortes físicas na mesma vida cármica. Cada um renasce com uma marca na mente de tudo que já viveu em outra época. A mente sempre continua e carrega consigo as sanscaras (cicatrizes)?, explica Bruno Davanzo, do Centro de Estudos Budistas Bodisatva Paramita. Na prática, os budistas comparam a vida com um colar de pérolas, no qual cada bolinha é interligada a outra por um fio, que seria a identidade. ?No nosso entendimento, os espíritas vêem a vida como dados empilhados, no qual uma vida serve de base para outra, porém sem haver uma identidade comum.? A partir desse conceito, os budistas explicam as predisposições e talentos das pessoas.

As duas únicas certezas que os budistas têm da vida pós-morte física é tudo o que fez de bom ou de ruim, que se traduzirá nas tendências da continuidade da alma em outro corpo. ?A missão é evoluir e, através da meditação, acessamos o sansara, que é a roda da vida?, comenta Bruno.

Segundo a crença budista, o renascimento é algo que acontece naturalmente até que a alma chegue à evolução máxima, à exceção dos budas, considerados espíritos iluminados. ?Eles optam por renascer para servirem de guias espirituais, já que lembram claramente de todas as experiências das vivências anteriores. O Dalai Lama (líder budista tibetano) está em sua 14.ª encarnação.? Para quem deseja entender melhor o renascimento budista, Davanzo indica o Livro tibetano do viver e do morrer, de Sogyae Rinboche. (GR)

Tai chi chuan e ioga na grade curricular

Usar a liberdade de expressão como forma de educação é a principal arma de uma instituição de ensino médio que tem uma grade curricular diferenciada. A escola André Luiz, vinculada às Faculdades Integradas Espírita, mantém as cadeiras exigidas pelo Ministério da Educação para a formação de seus alunos, acrescidas de atividades que visam uma maior sociabilização.

Aulas de práticas orientais como tai chi chuan e ioga, teatro, música e até parapsicologia entretêm os estudantes que permanecem na escola em período integral. ?Apostamos nessas atividades como forma de autoconhecimento e como forma de sociabilização?, explica a diretora Marisa de Oliveira Maltauro. Nas aulas de parapsicologia, por exemplo, é feito um trabalho de concentração para o autoconhecimento, desenvolvendo a sensibilidade dos alunos. ?Não é uma atividade diretamente ligada ao espiritismo, já que nossa escola é ecumência?, avisa Marisa.

Outra intenção da escola é trabalhar contra os preconceitos inerentes à sociedade. Justamente por isso, a escola aceita alunos com deficiências motoras ou mentais moderadas e os incluem no convívio com os demais alunos. ?Temos um caso de um garoto que estudou em várias escolas, mas tinha uma dificuldade de sociabilidade grande, além de ser hiperativo. O convívio dentro da filosofia da escola o ajudou.? A convivência não ajuda apenas o aluno especial. Para os outros colegas, é um exercício de aceitação das diferenças. ?Todos têm a aprender uns com os outros.?

Para facilitar o contato direto com cada aluno, as turmas possuem no máximo 25 alunos, de modo que os professores possam dar uma atendimento personalizado. (GR)