enkontra.com
Fechar busca

Mundo

Primeira vez que não é primeira vale?

  • Por Ligia Martoni

Foto: Ciciro Back/O Estado

Marilene: pode ser hipocrisia, mas talvez seja um freio-de-mão para impedir relações fora de hora.

"Eu conheço a mais bela flor. Tem do céu a serena cor, e o perfume da virgindade", já diria Machado de Assis, no poema ?Flor da Mocidade?. Chama atenção ainda hoje o assunto, sinônimo de pureza tão venerado por certos povos, culturas e religiões, mas que em outros meios perdeu o sentido. Ou será que não? Parecem demonstrar o contrário as que se submetem, ainda no século XXI, a uma forma de retomar a inocência perdida. Tema envolto em polêmica e conflitos éticos de toda ordem, a "volta" da virgindade pela reconstrução de seu maior símbolo, o hímen, pode ser obtida através de um procedimento cirúrgico simples e rápido, conhecido como himenoplastia.

Não é mais tão comum como há vinte anos, mas, mesmo assim, tem suas adeptas. Pois bem. Reconstrói o hímen, mas devolve a inexperiência com o sexo ou o perfume da virgindade, como denominaria o escritor? A partir daí o raciocínio fica por conta das mais de uma vez "virgens" e daqueles que por elas podem ser enganados ou, por isso mesmo, apreciarem violá-las.

Deu no jornal espanhol El País: Lá, virou moda entre as prostitutas pagarem dois mil euros por uma himenoplastia e venderem o novo hímen por três vezes o valor. Mas não é só por isso. A forte influência muçulmana também leva muitas moças a buscarem os médicos para evitar o risco de serem renegadas pelo marido, quando não condenadas a pedradas em praça pública. Por aqui, até pouco tempo era uma questão de não poder se mostrar sexualmente experiente ao marido, o que poderia gerar frustrações de toda ordem para o casamento. Mais tarde, ganhou corpo a questão religiosa, seja entre a comunidade muçulmana ou evangélica. Hoje, nota-se um aumento do número de himenoplastias entre mulheres ou meninas que sofreram violência sexual.

É, além disso, um tema de conflito ético. Até onde se pode recuperar o hímen e, assim, se considerar virgem novamente? Se para algumas for fácil assim, a medicina pode, sim, devolver a elas essa prova de pureza. "A himenoplastia é uma cirurgia relativamente fácil, em que se refaz o hímen a partir da mucosa vaginal. Pode ser feita apenas com sedação e o tempo de recuperação é rápido", explica a médica e sexóloga Marilene Vargas, do Núcleo de Estudos de Sexologia de Curitiba. Os resultados podem ser até melhores que o original, com dor e sangramento na hora do sexo, como dita a primeira vez. O preço ela não revela. Primeiro, porque depende do tipo de hímen. "Se tiver de reconstruir toda a mucosa, o valor é maior", diz. Mas a médica considera baixo o valor cobrado na Espanha, de dois mil euros – lembrando, no entanto, que por lá qualquer cirurgia plástica é bem mais cara que no Brasil. O que faz inclusive pacientes estrangeiras se dirigirem até as clínicas brasileiras para se submeter ao procedimento. Entre 15 e 30 minutos, pronto: são virgens novamente.

Mas, afinal, o que leva uma mulher a apagar a experiência sexual passada, refazendo o resquício físico? O hímen é complexo historicamente. "Antigamente era importante para o casamento. Povos indígenas, como os guaranis, e da antigüidade, como as civilizações asteca e egípcia, na época pré-bíblica, costumavam preservá-lo, mantendo relação anal como método contraceptivo, inclusive", explica Marilene. Já na Idade Média, era importante conservar o hímen para garantir que as riquezas de uma determinada casta não iriam parar nas mãos de outra. "A virgindade era importante do ponto de vista político, para perpetuação dentro de uma mesma família", complementa. A tradição até hoje é forte entre os povos árabes, assim como para os ciganos – que vêem com orgulho expor o lençol sujo de sangue após a noite de núpcias.

Nos anos 2000s, o hímen ganha outra força: a volta ao princípio. É como se a sociedade tivesse chegado a tal ponto de promiscuidade que resgatar a pureza fosse o processo natural de se voltar ao início, como tudo que chega a seu limiar. "Pode ser uma hipocrisia, mas talvez seja também um freio-de-mão para impedir que certas relações aconteçam fora de hora, ou uma tentativa de resgatar a família e estabilizar a sociedade. E se para isso é preciso reconstituir o hímen, então acho que é também um preço bastante baixo", considera a médica.

Coqueluche são as cirurgias íntimas

Apesar de ainda haver quem se submeta, a himenoplastia é um procedimento que vem perdendo demanda a cada ano. Hoje em dia, a coqueluche são as cirurgias íntimas, que servem, por exemplo, para corrigir imperfeições estéticas da área dos pequenos lábios ou, ainda, o chamado períneo social, que, longe de servir para erguer a bexiga, é utilizado no caso de a mulher achar necessário ficar um pouco mais "apertadinha".

Os anos 80s foram os que mais concentraram procura pela himenoplastia – quando, depois das revoluções da juventude, ainda a família primava pela virgindade no casamento. Hoje, a valorização da virgindade transparece mais entre grupos religiosos e, em alguns casos, nas cidades interioranas (característica que já trouxe muitas mulheres de cidades pequenas para a sala cirúrgica de Marilene Vargas). Não se pode descartar a prática também entre profissionais do sexo, ou, ainda, e cada vez mais crescente, entre mulheres ou adolescentes que sofrem abuso sexual.

É o que demonstram as estatísticas colhidas no Núcleo de Estudos de Sexologia, dirigido pela médica curitibana. Entre os anos 80s e 90s, das mulheres que se dirigiam a seu consultório, 8% queriam fazer cirurgia íntima ou himenoplastia. Desse universo, 40%, ou seja, quase a metade, era proveniente do interior dos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, principalmente. O restante era de Curitiba.

Já entre os anos 90s e 2000s, 5% das mulheres atendidas fizeram himenoplastia. Dessa vez a estatística foi separada, contabilizando que outras 10% realizaram cirurgia íntima. Das que buscaram a reconstrução do hímen, 82% tinham vindo do interior daqueles estados e também de outras regiões do País, além de países vizinhos, como Argentina e Uruguai. Nessa época, mulheres mais velhas procuraram pela cirurgia, uma vez que a faixa etária predominante foi entre 16 e 27 anos, diferente do que predominou nos anos 80s/90s, entre 15 e 20 anos.

Entre 2000 e 2005, só 1% das mulheres que procuraram o núcleo o fizeram pensando na himenoplastia. Interessante é notar o motivo que as levou a isso. Enquanto nos anos 80s/90s apenas 0,02% das que realizaram a cirurgia de reconstituição do hímen tinham feito a opção depois de terem relações sexuais forçadas ou com violência, nos anos 2000s, essa percentagem saltou para 32%. Ao que parece, essas mulheres encontraram uma alternativa para apagar o passado marcado por experiências traumáticas para tentar retomar seus relacionamentos, começando do zero. E, nesse caso, acredita Marilene Vargas, a himenoplastia pode ser positiva não apenas do ponto de vista da recuperação do hímen, mas, principalmente, como uma chance de devolver à mulher a chance de viver, no lugar da frustração, a experiência sonhada – e que pode finalmente se tornar realidade com uma mão da medicina. (LM)

Garota de programa não faria reconstituição

Por telefone fica mais fácil discutir um assunto considerado constrangedor. Mas, para Michele (nome fictício), garota de programa de 23 anos que trabalha em um bar executivo de Curitiba, falar de himenoplastia ou outro assunto qualquer relacionado ao polêmico hímen não é problema nenhum. Ela, no entanto, nunca fez para fins profissionais e acha que, no Brasil, o comportamento e a exigência dos clientes ainda não chegou a tal ponto – ao menos explicitamente. "Tem quem prefere as morenas, as loiras, as altas, baixas, ou mais a simpatia que o físico. Só que eles nunca pediram uma virgem. Acredito que existe a fantasia; se fosse oferecido, teria clientes", arrisca. O serviço, no entanto, teria de ter custo-benefício vantajoso. "Seria interessante explorar, desde que o retorno compensasse o investimento".

Mas essa é uma opinião de mercado. No caso específico de Michele, ela diz que não se submeteria a uma cirurgia para satisfazer ao gosto de um pagante. "Além disso, encareceria bastante o programa", diz. O valor cobrado por programa na casa onde ela trabalha varia entre R$ 70 e R$ 250, dependendo do cliente, da garota que ele deseja e do que procura. Já reconstituir o hímen, afirma, tem muito mais a ver com o lado emocional. "Perder a virgindade não é só romper a pele. Envolve o lado afetivo, aquilo que a garota de programa não sonha mais. Acho que uma garota faria, sim – a himenoplastia -, para constituir uma família, se o noivo exigisse, mas não pelo cliente."

No caso dela, não foi preciso. Michele é casada com um ex-cliente que exigiu dela apenas parar de trabalhar. "Durante um ano virei dona de casa. Depois, a situação começou a ficar difícil, disse a ele que não ia abrir mão do dinheiro que ganhava e ele aceitou", lembra. Para ela, esse posicionamento do homem até mesmo tira a vantagem que as virgens supostamente têm. "O fato de a mulher ser virgem ou passar a sensação de inexperiente segura o homem no casamento, mas o problema é que ele vai procurar lá fora o que não tem em casa. Muitos dos nossos clientes, por exemplo, se casaram com virgens, meninas ‘certinhas’", relata.

Mas, se fosse esse o desejo do noivo, em sua experiência, ela confessa que o lado romântico falaria mais alto – e recuperar o hímen para satisfazê-lo valeria a pena. "Faria por amor. A gente se sente carente porque os homens procuram mais sexo que amor. Todos os meus namoros demoraram muito tempo, mas eu percebia que tinham mais atração física que sentimento por mim. Faria para começar de novo, com um homem que não soubesse do meu passado, mas, confesso, ainda assim estaria construindo o meu futuro em cima de uma mentira." (LM)

Cirurgia cada vez menos procurada

A himenoplastia é o tipo de cirurgia que não se aprende nas faculdades de medicina, e raramente se faz em hospitais públicos. Os médicos que conhecem o método aprenderam com outro profissional. "Tinha um professor que fazia muito na década de 60. Era comum fazer o aborto e, logo em seguida, uma himenoplastia", lembra o ginecologista Carlos Navarro. Ele fez apenas uma dessas na vida, há cerca de oito anos. Era uma paciente de trinta anos, evangélica, que estava noiva e chegou a fazer sexo com o suposto futuro marido, mas o casamento não aconteceu. "Na época, quis mandá-la para um psicólogo, porque, como qualquer cirurgia, precisava estar esclarecida sobre o que ia fazer. Era óbvio que vivia um conflito moral, mas não aceitou. Estava decidida", conta o médico.

Para Navarro, virgindade não tem necessariamente a ver com o hímen. "Vale a experiência, não a membrana." Hoje, afirma que evitaria fazer outra himenoplastia, mas não nega que pareceu-lhe ter beneficiado a antiga paciente. "O fato de achar que era virgem de novo a fez ficar bem emocionalmente", lembra de ter-lhe relatado a mulher, após o procedimento. Perguntado quanto aos conflitos éticos que rondam o tema, ele é enfático: "Surte os mesmos efeitos se encararmos como uma cirurgia plástica; a pessoa não precisa fazer do ponto de vista da saúde, mas faz pela auto-estima", avalia. No entanto, acredita que hoje há meios mais fáceis de se reproduzir o hímen perdido. "Nos sex shops existe um produto que se chama virgin again. Por ser adstringente, resseca a vagina e simula a sensação de uma virgindade." Se a moda pega… (LM)

Siga a Tribuna do Paraná
e acompanhe mais novidades

Deixe um comentário

avatar
300

Seja o Primeiro a Comentar!


wpDiscuz

Últimas Notícias

Mais comentadas