A ilha caribenha de Porto Rico, terra natal do fenômeno musical Bad Bunny, vive uma situação política única e controversa. Com uma área equivalente a um Distrito Federal e meio, o território de 8,9 mil km² e 3,2 milhões de habitantes mantém laços estreitos, porém ambíguos, com os Estados Unidos.
Oficialmente classificado como “Estado Livre Associado”, Porto Rico apresenta características que o colocam em uma zona cinzenta entre autonomia e dependência. Os porto-riquenhos desfrutam de livre trânsito nos EUA e elegem seu governador, mas não podem votar para presidente americano nem têm representantes com direito a voto no Congresso.
A complexidade da situação fica evidente quando se observa que, apesar da autonomia administrativa, Porto Rico deve seguir leis federais americanas e abriga bases militares de Washington. Essa realidade leva especialistas e movimentos políticos a considerarem a ilha uma colônia moderna dos EUA.
O professor Gustavo Menon, da Universidade Católica de Brasília, explica: “Os porto-riquenhos estão sujeitos às leis federais e decisões de Washington, sendo frequentemente descrito como uma verdadeira colônia. É um resquício neocolonial que persiste nessa primeira metade do século 21”.
A questão ganhou destaque recentemente com a apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl. O artista usou o palco para celebrar a cultura latina e criticar sutilmente as políticas anti-imigração do governo Trump. Sua performance, cantada inteiramente em espanhol, provocou reações acaloradas, incluindo críticas do próprio presidente americano.
A música de Bad Bunny frequentemente aborda a identidade cultural de Porto Rico e questiona a influência americana na ilha. Em uma de suas canções, ele alerta: “Eles querem tirar meu rio e minha praia também. Eles querem meu bairro e que a vovó vá embora. Não, não solte a bandeira nem se esqueça do lelolai”.
A história de Porto Rico como território americano remonta à guerra hispano-americana de 1898, quando os EUA assumiram o controle da ilha. Desde então, o status político do território tem sido objeto de debate e múltiplos referendos. O mais recente, em 2024, mostrou uma maioria de 58% favorável à ideia de Porto Rico se tornar um estado americano.
No entanto, essas consultas populares não têm efeito vinculante, cabendo ao Congresso dos EUA qualquer decisão sobre mudanças no status da ilha. Enquanto isso, Porto Rico continua navegando nas águas turbulentas entre autonomia e dependência, com sua rica cultura latina servindo como âncora de identidade em meio às incertezas políticas.



