Um adolescente branco de 17 anos foi preso nesta quarta (26) sob suspeita de ter sido o responsável pelo assassinato de duas pessoas durante as manifestações contra o racismo e a violência policial em Kenosha, nos EUA.

A detenção acontece no mesmo dia em que o presidente Donald Trump anunciou o envio da Guarda Nacional para a cidade, em uma tentativa de conter a tensão na região.

Os atos em Kenosha, no estado de Wisconsin, começaram após Jacob Blake, um homem negro, ser baleado pelas costas por agentes brancos durante uma abordagem policial no domingo (23), em uma ação que foi filmada por testemunhas.

A polícia ainda não explicou por que a vítima, que tentava separar uma briga entre duas mulheres, foi atingido por quatro tiros em frente a seus filhos de 3, 5 e 8 anos. Blake, 29, sobreviveu, mas ficou paralisado da cintura para baixo, segundo o pai. Ele segue internado.

Após o caso, a cidade passou a viver dias de tensão, com as ruas tomadas tanto por manifestantes antirracismo quanto por grupos de civis armados, formados majoritariamente por brancos, que alegam proteger propriedades de saques e depredações que ocorrem durante os protestos.

Nesta terça (25), terceira noite seguida de atos na cidade, a situação saiu de controle após um homem abrir fogo contra participantes do ato, deixando duas pessoas mortas e uma ferida.

Imagens gravadas por testemunhas mostram o momento em que um grupo de manifestantes tenta pegar um homem que, com um rifle, teria atirado em outra pessoa. Ele então faz disparos à queima-roupa contra seus perseguidores.

“Parece ser um membro de milícia que decidiu ser um justiceiro, tomar a lei com as próprias mãos e derrubar manifestantes inocentes”, disse, antes da prisão do suspeito, o vice-governador de Wisconsin, o democrata Mandela Barnes.

A polícia não informou se o adolescente detido é a mesma pessoa que aparece nas imagens e se ele de fato integrava os grupos armados que estavam nas ruas.

As autoridades disseram apenas que prenderam o suspeito na cidade de Antioch, no estado vizinho de Illinois, a 25 km ao sul de Kenosha.

O adolescente, que é branco, foi indiciado por homicídio em primeiro grau, semelhante a homicídio doloso no Brasil, e está detido em Antioch enquanto aguarda transferência para Wisconsin, segundo a polícia.

De acordo com a agência de notícias Reuters, o perfil do adolescente em uma rede social – já deletado – mostra ele e um amigo empunhando um rifle e acompanhados da inscrição “blue lives matter” (vidas azuis importam).

A expressão é usada em apoio a policiais (que costumam usar uniforme azul nos EUA) e em oposição ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), principal organizador de atos contra o racismo.

O temor de novos confrontos fez o governador de Wisconsin, o democrata Tony Evers, negociar com Trump o envio de reforços para a região. “Mandarei agentes de segurança federais e a Guarda Nacional a Kenosha para restaurar a lei e a ordem”, afirmou o republicano por meio de uma rede social.

“Não vamos tolerar saques, incêndios criminosos, violência e ilegalidade nas ruas americanas.”

Em reação aos confrontos, Evers já tinha declarado estado de emergência na terça (25) e anunciado o reforço na segurança da cidade. Ele também decretou toque de recolher depois das 20h em Kenosha, mas as medidas até o momento não impediram o caos na região.

Na noite de terça, os manifestantes se reuniram perto do tribunal da cidade, onde foi erguida uma barreira de metal para proteger o prédio, e atiraram pedras, fogos de artifício e garrafas de água contra os policiais.

Os guardas, por sua vez, lançaram bombas de gás e balas de borracha para dispersar a multidão, que seguiu nas ruas mesmo após o toque de recolher.

Após os policiais expulsarem os manifestantes dos arredores do tribunal, os confrontos se espalharam pelas ruas. Em um posto de gasolina, um grupo de civis armados que protegia o local de possíveis ataques passou a xingar os ativistas que passavam. Houve discussões, e a tensão cresceu. Logo depois, os tiros que deixaram os dois mortos foram disparados próximos ao local.

Ativistas ligados ao Black Lives Matter pedem que os policiais envolvidos no caso sejam demitidos e presos. Até agora, eles foram apenas afastados de suas funções.

A mãe de Blake, Julia Jackson, disse na terça que é contra protestos violentos em defesa de seu filho. “Eu vejo muitos danos. Isso não reflete meu filho ou minha família.”

A ação na qual Blake foi baleado ocorreu no domingo (23). Um vídeo que circula nas redes sociais mostra ele andando até o assento do motorista de um veículo SUV, parado na rua, seguido por dois policiais que apontam armas para suas costas. Ele, que aparenta estar desarmado, abre a porta do carro com os agentes atrás dele, e os tiros são disparados à queima-roupa. É possível ouvir sete disparos.

De acordo com advogados da família, Blake sofreu perfurações no estômago e precisou retirar quase todo o cólon e o intestino delgado. Também sofreu danos no rim e no fígado, além de um dos disparos ter atingido o braço.

O caso é mais um a provocar protestos contra a brutalidade e o racismo da polícia desde o assassinato, em 25 de maio, de George Floyd, um homem negro, em Minneapolis. Floyd foi sufocado por um policial branco que pressionou o pescoço da vítima por quase nove minutos com o joelho.

A morte do ex-segurança gerou uma onda de atos que se espalhou por dezenas de cidades dos EUA e outras partes do mundo. Floyd foi lembrado em manifestações na África, na Ásia, na Europa e no Brasil.

Os protestos antirracismo são um dos temas da campanha eleitoral nos Estados Unidos. Trump, que busca a reeleição, tem buscado ressaltar a destruição ocorrida em algumas das manifestações e se colocar como um defensor da lei e da ordem. Seu rival, Joe Biden, tem dado apoio aos protestos e defendido mudanças para combater a violência policial contra os negros.