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Pinhais de Curitiba

  • Por Jornalista Externo

A tradução de Curitiba para muito pinhão permite que se diga, por exemplo, que curi é igual a pinhão e (t)tiba igual a muito, numa ousada e pretensa tradução literal dos termos dispostos. Infelizmente, porém, a simplicidade da explicação não é tanta, conforme as assertivas do mestre filólogo Rosário Farani Mansur Guérios, tempos depois ratificadas por outro mestre, Francisco Filipak.

Sucede que essa tradução simples e ingênua, como produto e em face do sentido, é cem por centro correta, embora não mostre na verdade os permeios e as sutilezas por que devem ser vistos os fonemas, desde as origens, mas resulta precisamente na idéia de grande quantidade de pinhão, fruto do Pinheiro do Paraná, a árvore da espécie Araucaria angustifolia, conforme sua ordenação botânica. Promove-se, então, a incursão perscrutadora no terreno inóspito do gênio das línguas. Este é geralmente penoso e, por isso, muitas vezes nada estimulante. Entretanto, sem ser rigorosamente genioso e gênio, certo é que costuma apresentar, pelas belíssimas sutilezas que detém, características intrínsecas e subjetivas de admirável generalidade, mesmo na boca dos silvícolas, donos do idioma.

Diante disso, metediços preocupados com a etimologia vocabular podem ser comumente vítimas de interpretações imprecisas, duvidosas e até bisonhas, causada pela singeleza do fato de se estribarem numa conversão literal, ou mesmo na língua brasílica, ou em registros de quem nesta se apoiou. De modo que decorre desse cochilo um melancólico isolamento ao restrito universo tupi, quando a região do planalto curitibano era de absoluto domínio guarani.

Os idiomas, porém, são semelhantes, e sobre eles é possível dizer que se parecem no geral e diferenciam-se nas particularidades. Como são constatáveis variações fonéticas e conseqüentemente ortográficas entre elas, não construiria nenhuma novidade o fato de verificar que os gênios também exibem alguns caprichos.

Com relação à fonética, por exemplo, sabe-se que o som do esse (s) tupi corresponde ao agá (h) guarani, o ka (k) tupi ao gê (g) guarani, e assim por diante. O resultado dessas fonias causa uma profunda dissemelhança, de modo que apenas os sufixos ficam a mostrar a parecença. O sufixo iba do composto tyba correspondia no guarani à fruta, conotando especialidade, especificidade, determinação, não a uma fruta qualquer. Dizia justamente da fruta, aquela certa fruta (o pinhão), aquela que dá nas pinhas nascidas no topo da determinada e exuberante espécime vegetal.

O sentido do pinheiral (apenas o sentido, não o vocábulo), por sua vez, deriva de Kur I, ocorrente na forma Kury i, devidamente registrada já no século 17 pelo padre Antônio Ruiz Montoya, designando, tal expressão, árvore Ku ri, ou seja, o pinheiro como tipo, o grande número de árvores daquele tipo específico que ocorre na região em grupamentos, capões, pequenos ou grandes, por vezes a perder de vista, chamados convencional e posteriormente, pelos portugueses, pinhais ou pinheirais. Pinhal e pinheiral, portanto, possuem sentido estrito de coletivo, porém não mais de um simplesmente, como se possa querer, mas muitos mesmo, centenas, milhares.

Assim, enquanto o guarani contribui como cury (o tipo específico de árvore), primeira parte do vocábulo e com o iba do restante a significar aquela determinada fruta (a fruta da árvore ou o pinhão do pinheiro), o iba já teria recebido a participação do tê (t) tupi, (tiba), que no idioma tupi não era mais do que sufixo designativo de fartura, como sentido abundancial genérico, sem nenhuma alusão direta à árvore Araucária angustifolia. O tupi não aplicava o vocábulo, portanto, apenas aos muitos pinheirais existentes; praticava-o, isto sim, sempre que as circunstâncias exigiam sentido de adjetivação substitutiva do pronome indefinido muito. Assim, se for considerado o significado de iba (-a fruta – guarani), mais o de tiba (= abundância – tupi), mais curi (= aquele tipo de árvore – guarani), chegar-se-á ao sentido de muito pinhão, pois abundância da fruta daquela determinada árvore vem a ser exatamente isto.

De maneira que Francisco Filipak, notável filólogo paranaense, autor de um definitivo estudo sobre a etimologia do vocábulo “curitiba”, esteve muito feliz quando afirmou que “o nome da capital paranaense constitui uma grande metonímia toponímica”.

Quanto aos vocábulos pinheiral, pinhal e pinhão, é equívoco pensar tratarem-se originários do tupi-guarani. Vem de piña, que procede por sua vez da península ibérica, embora se apresente como evidente portuguesismo. Curioso, no entanto, a respeito do termo, é que se encontra registrado no Vocabulário da Língua Brasílica, autor anônimo, que a mostra nas formas pinhão (= piña) e pinheiro (= piñay’ba), onde se deduz, que foi a vez do tupi pedir emprestado ao português o vocábulo que nominaria o fruto dos kuri y, sapecado nas grimpas com desembaraço, pelos guaranis, habitantes de toda a região.

Segundo Romário Martins, à luz de qualquer documento histórico disponível, denominação do então núcleo ou vila era Nossa Senhora da Luz, isto quando nela diga-se que já tratada por vila, erigiu-se, em 1668, o pelourinho. Não aparecia o vocábulo curitiba. Em seguida, mas já em torno de 1693, há grafado o nome da vila como sendo de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais, ainda sem a presença de Curitiba. Alguns documentos, já no século XVIII, incluem o vocábulo distinguindo a vila como a bela e longa nominação de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais de Curitiba. Só que, por curioso que pareça, este último título abriga, singularmente, um metediço e distraído pleonasmo: Pinhais de Curitiba.

Valério Hoerner Júnior é professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e pertence à Academia Paranaense de Letras.

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