O papa Francisco proclamou neste sábado 20 novos cardeais para o clube da elite eclesiástica, que elegerá seu sucessor, e imediatamente fez um discurso com tom de reprimenda. O pontífice pediu que os líderes religiosos coloquem de lado o orgulho, a inveja e os seus interesses e, em vez disso, pratiquem a caridade perfeita.

Francisco fez as declarações durante uma cerimônia na Basílica de São Pedro na qual nomeou os novos “príncipes da Igreja” ao Colégio de Cardeais e deu a eles seus novos chapéus vermelhos. O papa aposentado Benedito XVI compareceu ao evento e se sentou na primeira fila. Francisco o abraçou no início e no fim do serviço e uma fila de cardeais se formou para cumprimentá-lo antes da procissão no final do dia.

Muitos dos novos cardeais vieram de países distantes, de dioceses negligenciadas, onde os católicos são uma minoria étnica, o que reflete a insistência do novo papa para que a Igreja esteja próxima das periferias e aceite os marginalizados em sua governança. Diversos nomeados são pastores que, como Francisco, focaram seus ministérios para o trabalho com os pobres e desprivilegiados.

Em sua homilia, o pontífice lembrou a seus novos colaboradores que ser um cardeal não é um prêmio, ou um cargo extravagante, mas uma maneira de servir à Igreja com humildade e ternura. Ele alertou para o fato de que nenhum católico está imune à tentação de ser invejoso, raivoso ou orgulhoso, ou de perseguir seus próprios interesses, mesmo quando “vestido com aparência nobre”.

“Mesmo aqui, a caridade, e somente a caridade, nos liberta”, ele disse. “Sobretudo, nos livra do perigo mortal da raiva reprimida, daquela raiva latente que nos faz remoer os maus da nossa vida. Não! Isso é inaceitável para um homem da Igreja.”

De certa forma, seu discurso foi uma versão amenizada da crítica que fez a burocratas do Vaticano logo antes do Natal. Ele destacou, na época, 15 doenças do homem, incluindo o “Alzheimer espiritual” e o “terrorismo da fofoca”.

Esta foi a segunda vez que Francisco nomeou novos cardeais e mais uma vez as “periferias” ganharam representação geográfica no Colégio. Suas escolhas, porém, também refletem sua visão do que a Igreja deve ser, com um olhar mais cuidadoso para os pobres e os marginalizados.

Os escolhidos incluem o cardeal Soane Patita Paini Mafi, de Tonga, uma pequena ilha no meio do Oceano Pacífico que deve ser um dos principais territórios a sofrer com o aquecimento global. Outro cardeal, Francesco Montenegro, de Agrigento, na Sicília, também supervisiona a diocese de Lampedusa, território inundado por milhares de imigrantes nos últimos anos. A lista traz também o nome do arcebispo Jose Luis Lacunza Maestrojuan, de David, no Panamá, que trabalha para proteger povos indígenas dos interesses mineradores.

Embora os cardeais sejam chamados para aconselhar o papa, o principal objetivo do Colégio é escolher um novo pontífice quando o atual falecer ou for incapaz de continuar na função. Apenas aqueles com menos de 80 anos podem participar do conclave e, com as nomeações do sábado, o número total de habilitados chegou a 125, cinco a mais do que o limite tradicional. Fonte: Associated Press.