Na véspera do encontro com o papa Francisco, os participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares, vindos de 40 países diferentes, apostam em uma nova relação da Igreja Católica com camponeses, trabalhadores informais, sem-teto e excluídos, após décadas de distância.

“Lamentavelmente, nem todos são o papa Francisco, muitas igrejas são ligadas ao capital. Temos que apoiar este papa, porque ele caminha na direção dos movimentos populares. Talvez demore um pouco para que a Igreja acolha esta mensagem, mas é um avanço importante”, disse a chilena Francisca Rodríguez, uma das principais líderes camponesas presentes ao encontro que acontece em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia.

Fausto Torres, representante da Associação de Trabalhadores do Campo, da Nicarágua, citou duas decisões do papa como indicativos de um novo tempo na relação entre o mundo católico e os excluídos. Uma delas foi a beatificação do monsenhor Óscar Romero, dedicado ao trabalho pastoral com os movimentos populares, assassinado quando rezava missa em março de 1980, em El Salvador. A segunda medida foi o fim da sanção ao padre Miguel D’Escoto Brockmann, nicaraguense que teve o exercício do sacerdócio cassado em 1984 pelo papa João Paulo II, por causa das atividades políticas e atuação no governo sandinista.

“São sinais que temos que aplaudir, assim como a encíclica sob o clima (divulgada em junho). É importante que o povo conheça, estude este documento. Pela primeira vez a Igreja se manifestou sobre este tema tão importante.”

Com 1.500 participantes, o encontro abriga delegação de 250 brasileiros, como o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) João Pedro Stédile, da comissão organizadora. Ao fim do evento, será entregue documento ao papa com três pontos: a síntese das discussões, a “denúncia da realidade” e “os compromissos que devemos assumir para mudar o mundo”.

“Sofremos dois papados conservadores que viam a pastoral apenas para dentro da Igreja. A consequência foi que a Igreja viveu uma crise jamais vista. Felizmente, Deus existe e nomeou o papa Francisco, com uma visão progressista da humanidade, que percebe a Igreja dentro da sociedade. Esperamos que isso vá recuperar o trabalho pastoral da Igreja entre os pobres e entre os movimentos populares”, disse Stédile.

Para o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Guilherme Werlang, bispo de Ipameri (GO), o fato de o encontro mundial dos movimentos populares, que se repete em Santa Cruz de la Sierra após a primeira versão em Roma, ser uma iniciativa do Vaticano é “fato único”. “Por meio de seu líder maior, a Igreja convocou os movimentos populares do mundo para discutir questões vitais como o meio ambiente, exclusão social, economia, a raiz e os motivos da pobreza.”

Nesta terça-feira, 07, o encontro recebeu o presidente Evo Morales, muito aplaudido. Ele tem relação difícil com a Igreja boliviana, mas se diz fã do papa Francisco, com quem já esteve três vezes. O governo boliviano tem sido pressionado pela oposição a libertar adversários apontados como presos políticos. Foi tentado, sem sucesso, incluir os “perseguidos políticos” entre os 3 mil presos que receberam indulto do governo em razão da visita do papa.

Santa Cruz de la Sierra, segunda maior cidade boliviana, com 1,7 milhão de habitantes, é reduto de oposição ao presidente e concentrará a maior parte da agenda do papa na Bolívia. Francisco ficará hospedado na casa do arcebispo emérito da cidade, cardeal Julio Terrazas, que tem relação distante com Morales. O cardeal tem a saúde frágil, foi internado há duas semanas, com desidratação. Terrazas não acompanhará a agenda papal, que inclui missa no local conhecido como Cristo Redentor, encontro com religiosos e movimentos populares e visita ao presídio de Palmasola, o mais violento do país.

A Bolívia recebeu João Paulo II em 1988 e agora se mobiliza para a visita de Francisco. Em Santa Cruz, começou nesta quarta-feira, 08, a lei seca, que proíbe venda e consumo de bebidas alcoólicas até sexta-feira, quando o papa segue para o Paraguai.