O jurista Richard Goldstone, um experiente investigador de crimes de guerra atualmente a serviço da Organização das Nações Unidas (ONU), admitiu hoje a improbabilidade de a apuração de denúncias de atrocidades atribuídas a Israel e ao Hamas na Faixa de Gaza terminar em indiciamentos. “De um ponto de vista político prática, eu gostaria de poder ser otimista”, disse. O principal empecilho ainda é a ausência de um tribunal com jurisdição clara para acatar as denúncias formais eventualmente resultantes da investigação da ofensiva militar israelense contra a Faixa de Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.

Israel tem se recusado a cooperar com os investigadores, impedindo o acesso a fontes militares e a vítimas de disparos de foguetes efetuados por militantes palestinos. Ao mesmo tempo, agentes do Hamas acompanharam os investigadores da ONU durante os cinco dias em que eles permaneceram na Faixa de Gaza na semana passada, colocando em dúvida a capacidade das testemunhas de falarem abertamente sobre as ações do grupo islâmico.

Apesar disso, Goldstone tem a esperança de que o relatório da investigação, com divulgação prevista para setembro, ajude outras agências da ONU e governos estrangeiros a tomarem alguma medida. Goldstone, um experiente jurista sul-africano que investigou crimes de guerra na antiga Iugoslávia e em Ruanda, se recusou a falar sobre o teor da investigação.

Israel alega acreditar que a investigação não será objetiva e acusa o Conselho de Direitos Humanos da ONU, que pediu a apuração, de ter postura “anti-israelense”. Goldstone, o chefe da investigação, é judeu e possui estreitas ligações com Israel, mas goza de prestígio internacional e é considerado isento.

Pelo menos 1.100 habitantes do território morreram durante a ofensiva de três semanas iniciada em 27 de dezembro, segundo dados de ambos os lados. Os militares israelenses afirmam que a maioria dos mortos era de militantes, enquanto os palestinos dizem que a maioria eram civis. Em março, o grupo Centro Palestino de Direitos Humanos divulgou a identidade de 1.417 palestinos mortos durante a ofensiva militar israelense, afirmando que 926 deles eram civis, 236 eram milicianos e 255 eram integrantes das forças locais de segurança.

Contestação

Dias depois, o Exército de Israel contestou as denúncias de que a maior parte dos mortos fosse composta por civis. Além disso, o governo israelense afirmou que 1.166 pessoas morreram na região durante a ofensiva, das quais 709 seriam militantes do Hamas. O número de civis mortos seria de pouco menos de 300. O anúncio não esclareceu se as outras 162 pessoas mortas eram combatentes ou civis nem forneceu a identidade das vítimas.

Israel lançou a ofensiva com o objetivo declarado de interromper anos de lançamento de foguetes palestinos contra em sua fronteira. O Exército usou força sem precedentes na pequena faixa mediterrânea, incluindo mais de 2 mil ataques a bomba e barragens de artilharia e morteiros contra militantes palestinos que operavam em áreas residenciais.

Grupos de defesa dos direitos humanos dizem que há grande suspeita de que tanto Israel quanto o Hamas colocaram civis em perigo – o Hamas ao usá-los como cobertura e Israel ao usar força desproporcional na densamente povoada Faixa de Gaza.