O governo norte-americano violou leis internacionais ao usar aviões não tripulados, os chamados “drones”, para assassinar supostos militantes islâmicos, concluíram os autores de dois relatórios divulgados hoje por conceituadas organizações não-governamentais (ONGs). Além disso, os ataques ditos “seletivos” no Paquistão, no Iêmen e na Somália deixaram um rastro macabro de mortes que inclui crianças, mulheres e idosos.

As investigações da Anistia Internacional e da Human Rights Watch (HRW), publicadas nesta terça-feira, expõem novos detalhes de uma das facetas mais controversas da campanha do atual governo dos Estados Unidos para enfraquecer extremistas islâmicos em países da Ásia, do Oriente Médio e da África.

 

Desde que se tornou presidente dos EUA, Barack Obama promoveu uma escalada sem precedentes no uso de drones, bem acima dos níveis do governo George W. Bush.

 

“O governo norte-americano ainda não tornou pública nenhuma nova informação sobre sua política de drones, seus parâmetros legais ou ataques específicos”, apontou a Anistia Internacional.

A Human Rights Watch analisou seis ataques, entre 2009 e 2013, atribuídos aos EUA. Washington não admite responsabilidade pelas ações. Um desses casos envolveu uma ação da Marinha com bombas de fragmentação, que teria matado pelo menos 41 civis, segundo a ONG. A Human Rights Watch conclui que dois dos seis ataques foram violações da lei internacional, pois utilizaram armas que provocam destruição indiscriminada ou atingiram exclusivamente civis.

A Anistia Internacional pediu ao governo norte-americano que investigue os casos de civis mortos e feridos em bombardeios promovidos por drones no Paquistão e manifestou preocupação com a possibilidade de as ações norte-americanos constituírem execuções extrajudiciais ou crimes de guerra.

O apelo da Anistia Internacional foi feito junto com a divulgação de um relatório no qual o grupo detalha casos nos quais os bombardeios norte-americanos resultaram em mortes de civis, entre eles o caso de Mamana Bibi, de 68 anos.

A idosa foi morta em 24 de outubro do ano passado quando foi atingida por uma bomba norte-americana enquanto colhia legumes em sua horta na região paquistanesa de Waziristão do Norte. Três netos dela ficaram feridos no episódio.

A Anistia Internacional pede que os EUA cumpram sua obrigação internacional de investigar os episódios documentados e deem “plena reparação” aos sobreviventes e familiares das vítimas. Na avaliação da ONG, os ataques com drones abrem um precedente perigoso no qual “outros Estados podem tentam escapar da responsabilidade por seus próprios assassinatos ilegais”.

A Anistia também critica o governo do Paquistão pela ambiguidade com que se comporta diante desses bombardeios. Apesar das críticas em público, setores do exército paquistanês mostraram-se a favor do programa de drones no passado.

Na semana passada, a Organização das Nações Unidas (ONU) pediu aos EUA que revele detalhes sobre os civis mortos e feridos em seus bombardeios com aviões teleguiados no Paquistão. Uma investigação da ONU apontou 33 ataques atribuídos a drones norte-americanos nos quais houve vítimas civis.

Hoje, no início de uma visita a Washington, o primeiro-ministro Nawaz Sharif pediu o fim desses ataques e acusou os EUA de violarem a integridade territorial paquistanesa. Ainda segundo o chefe de governo paquistanês, esses ataques representam um importante obstáculo à melhora das relações entre Islamabad e Washington. Sharif se reunirá amanhã com Obama.

Os EUA insistem que os bombardeios são “legais”. O governo norte-americano alega que seu programa de drones é essencial para o combate aos rebeldes islâmicos que atuam na porosa e escarpada fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Em maio, o presidente norte-americano, Barack Obama, disse que os EUA não acionam seus drones a não ser que “haja quase certeza de que nenhum civil será morto ou ferido”.

O fato, no entanto, é que o grande número de civis atingidos nesses ataques provoca ressentimento entre os locais e dificulta a coordenação dos esforços bilaterais no combate a extremistas islâmicos atuantes na região.

Desde 2004, quando os EUA deram início a esse tipo de ataque, mais de 350 bombardeios foram levados a cabo dentro do Paquistão. Ao longo dos últimos anos, diferentes grupos tentam – sem muita precisão – calcular o número de mortos em quase uma década de ataques com drones no Paquistão. As estimativas variam de 2.065 a 3.613 mortos no total, dentro os quais entre 153 e 926 seriam civis.

No relatório “Serei eu o próximo? Ataques com drones dos EUA no Paquistão”, a Anistia Internacional detalha bombardeios ainda mais mortíferos do que aquele que matou Mamana, com vítimas totalmente dissociadas dos extremistas que combatem na região.

Em 6 de julho do ano passado, um avião teleguiado dos EUA bombardeou uma tenda em Waziristão do Norte. Ao todo, 18 pessoas morreram. Na ocasião, “fontes” paquistanesas identificaram as vítimas como “supostos militantes”. A investigação da Anistia Internacional, no entanto, mostrou que se tratava de civis.

Dentro da tenda, ao invés de “terroristas”, um grupo de operários jantava depois de um dia de trabalho. Quando o socorro aos civis chegou, os EUA atacaram de novo, de acordo com testemunhas.

Os EUA não se pronunciaram sobre o caso. Fonte: Associated Press.