Medo, tristezas, mistério. Sentimentos que a morte desperta, misturados ao fascínio e ao completo desconhecimento desta etapa que, em relação à vida na Terra, é considerada a última e única digna de levar o título de certeza. Em meio às diversas repercussões e pontos de vista, o assunto deixa de ser tabu e se transforma em fonte de reflexões psíquicas, sociais e ideológicas, ganhando o campo da fé, da espiritualidade e das emoções.
?As pessoas fogem muito da morte. Até mesmo quando se fala nela há o medo de atrair. Isso porque ela nos instiga, nos dá medo, já que é algo fora de qualquer controle?, define a psicóloga Margareth Torel-li. Nas diferentes culturas e épocas, toma dimensões diversas. ?A cultura ocidental, por exemplo, tem o hábito de negar a morte, evitá-la. Para as crianças, então, é assunto proibido.? Já na Idade Média, marcada por guerras e lutas, a morte era vista como símbolo de honra e vitória. ?Em certas derrotas, era melhor morrer com honra que viver em desonra. A dor, nesse caso, era continuar vivo?, compara a psicóloga.
O fato é que, entre crenças e tradições, a morte é, na essência, algo que deve ser assimilado pelo ser humano desde seus primeiros passos. É a maior perda da existência do homem, mas se caracteriza primordialmente como a etapa do processo da vida que deve ser encarada com a maior naturalidade possível. ?Até porque nossas vidas são permeadas de perdas, verdadeiras mortes ao longo da experiência?, acrescenta Margareth. Quando se perde o emprego, morre-se para aquela função; quando se muda de cidade, é uma morte em relação àquele lugar. ?Comparado à dor de perder uma pessoa próxima, é algo que parece irrisório, mas no fundo se caracteriza como o mesmo processo.? São coisas que deixam de existir e exigem novas adaptações, muitas vezes envolvendo dor e sofrimento, mas sempre com a idéia do recomeçar.
Sentimentos
Quando uma pessoa próxima se vai, a dor é grande tanto pela perda como pela sensação de que também somos mortais. As reações de medo, dor e intensa saudade são naturais, provocando mudanças emocionais e estruturais, algumas passageiras e outras duradouras. A morte deve, por isso, ser vivenciada de maneira a realmente ?acontecer? para nós, processo que leva o nome de elaboração do luto.
Este consiste em cinco etapas: a primeira é de negação – a não-aceitação que trata-se da realidade; a segunda é marcada pela ?barganha?, ou seja, tenta-se mudar o que aconteceu, fazendo autoquestionamentos sobre as próprias atitudes e se seria possível alterá-las para trazer de volta a pessoa que se foi; a terceira etapa caracteriza-se pelo sentimento de raiva, é o momento de elucidação e de consciência da impotência de mudar o fato; a quarta etapa caracteriza-se pela depressão, a tristeza profunda; e a quinta, pela elaboração ou aceitação. ?As fases iniciais podem se misturar no processo. O importante, porém, é que o luto seja vivenciado até a última etapa; caso contrário, não dá para se libertar dessas sensações para voltar a viver normalmente, ou pode-se perder a disposição para coisas prazerosas, adquirindo, inclusive, predisposição a adoecer?, diz Margareth.
Por mais dolorosa que seja, esta experiência envolve muito aprendizado. A psicóloga revela que, quando as pessoas perdem, em geral, mudam seus valores e têm sua visão de mundo ampliada. ?Isso porque o enfrentamento da morte é o que mais valoriza a vida.?
Fim da vida terrena assume diferentes significados
Católicos e evangélicos crêem que, a partir da morte de Jesus, as portas da eternidade foram abertas. O cristianismo não crê na reencarnação, mas na ressurreição, um nascimento para a vida eterna. A Igreja Católica, porém, acredita que antes do juízo final, em que vivos e mortos serão julgados perante o tribunal de Deus, há um juízo particular, no qual a alma do que morre em pecado, mas crendo em Jesus, permanece no purgatório para purificação.
Os evangélicos crêem que a salvação é individual e acontece pela fé no filho de Deus, Jesus Cristo. ?A Bíblia coloca claramente que, na segunda vinda de Cristo, os mortos ressuscitarão, mas isso não será visível ao mundo?, explica o pastor Marcos Antônio da Silva. Pela salvação, todos os que crêem viverão eternamente com Cristo.
O monge budista Bruno Davanzo diz que, para os budistas, ?a morte implica em uma continuidade da mente em uma eterna roda de renascimentos, mas isso pode acontecer sem ser alcançada a lucidez?. Neste estágio, os renascimentos acontecem pelo condicionamento de causa e efeito. Tendência esta que pode ser alterada caso a pessoa consiga exercer a lucidez por meio da prática da meditação. ?A lucidez é a própria natureza de buda, que significa estado desperto. Todos têm potencial de se transformar em buda a partir do momento em que a alcançam?, acredita Davanzo.
Entre os princípios pelos quais se guia o espiritismo está também o da imortalidade da alma. Porém, os espíritas acreditam que esta imortalidade é, na verdade, um renascimento que proporciona a volta à ?verdadeira vida, que é a vida do espírito?, diz o vice-presidente da Federação Espírita do Paraná, Francisco Batista. Ele explica que, pela crença espírita, quando alguém morre, o espírito se liberta de uma prisão temporária, que é o corpo físico. ?Mas não é uma prisão negativa, pelo contrário, é positiva. Até porque é o espírito que age na matéria, é ele que dá as sensações, a vida.? (LM)
Quando o sofrimento dá lugar à esperança
A professora universitária Dirce Galdino sofreu duas vezes com o câncer. ?Tive dois linfomas, um no pulmão esquerdo, aos 25 anos, e o outro no direito, 20 anos depois. Em ambos, foi um verdadeiro milagre ter sobrevivido?, relata. ?Cheguei a pesar 34 quilos. Estava tão preparada para morrer que, quando fiquei curada, não sabia mais viver. Sofri vários descontroles, não conseguia mais aceitar o mundo. Aos poucos, tive de aprender a lidar com as coisas do dia-a-dia novamente. Mas também perdi completamente o medo da morte?, resume.
Até que ela descobriu o segundo câncer. ?Estava convicta: dessa vez, queria morrer?. Só quando teve a confirmação, ela se deu conta de que o que realmente desejava era continuar viva. ?Com o desespero de ver a morte se aproximar, resolvi lutar como nunca pela minha vida?, recorda Dirce, que tem plena convicção de que a fé a salvou. ?Sei que isso foi obra de Deus.?
Apoio
A empresária Maria Elisa Parcionik teve uma profunda experiência com a morte do marido e do filho caçula em um acidente de carro, há dez anos. ?Não teria sobrevivido se não fosse pelos amigos e por meus outros três filhos, que me carregaram no colo. Passei a dar muito mais valor à vida, a me preocupar menos com coisas pequenas, e percebi que nossa força só pode vir de Deus?, diz. Ela revela que o filho teve uma parada cardíaca e respiratória logo ao nascer. Quem o salvou foi o pai, que era médico. ?Entendi que era para os dois irem embora juntos. Um não poderia viver sem o outro?, acredita.
Maria Elisa hoje convive com a certeza de que, um dia, o filho Felipe virá buscá-la. ?Tenho uma perspectiva alegre de me encontrar com ele?, diz, esperançosa. No próximo mês ela pretende lançar o livro ?Amor-perfeito amarelo?, onde conta sua experiência. O título é uma referência às flores que Felipe plantava em um canteiro do jardim. (LM).
Para alguns, lidar com a morte faz parte da rotina profissional
Ter de lidar com a morte todos os dias é um desafio profissional e psicológico. O diretor geral do IML de Curitiba, Hélio Bonetto (foto), conta que, por dia, chegam no instituto cerca de 15 corpos. As autópsias têm de ser feitas independente do estado do cadáver. ?E tratamos todos da mesma maneira, sem nenhuma distinção. Para a família aquela pessoa é o que há de mais importante em suas vidas. Somos auxiliares da Justiça, mas vejo o trabalho do médico legista muito mais como uma função social?, afirma.
Sobre a relação pessoal com a morte, Bonetto acha que deve ser feita uma separação, para que os sentimentos não interfiram no trabalho. E o contrário também. ?Quando entro aqui, visto uma carapaça. Mas, como qualquer pessoa, sofro muito na minha relação pessoal com a morte?, conta o médico. ?Já aconteceu inclusive de ter de fazer autópsia em pessoas conhecidas. Daí a necessidade de ter um autocontrole muito grande. Se isso não acontece, nós desabamos.?
Naturalidade
Ademir Bueno é coveiro do Cemitério Municipal São Francisco de Paula há 40 anos. No dia-a-dia do cemitério, ele percebe a morte como algo natural e diz não ter nenhum medo de morrer. ?No começo achava estranho fazer isso. Mas agora estou acostumado?, conta. ?Mesmo assim, várias vezes já chorei junto com a família.? Ele acredita que ?esse trabalho ajuda a perder o medo da morte, aquela coisa de mistério.? E sobre as famosas histórias de aparições no cemitério, é categórico. ?Eu nunca vi nada, não. Tem um pessoal aqui que já disse que viu fantasma, mas nesses anos todos, nunca teve nada de anormal para mim.? (LM)


