Jairo Almeida

Cidade do interior, início da década de 60, a década que mudou tudo.

Nos domingos, a principal missa era a das 10h na Catedral, em frente à praça, é claro.

Depois os rapazes formavam uma galeria na rua em frente à Catedral e as moças, sempre em pequenos grupos, passeavam de um lado para outro. Chamávamos esse ritual de ?corre-saia?. A denominação poderia não ser muito elegante, mas era ali que surgiam os namoros, as paixões e, principalmente, os sonhos.

Claro que era tudo muito diferente dos dias de hoje. É muito difícil para um jovem imaginar isso: os rapazes e as moças com suas melhores roupas, muito cuidado com a aparência e a elegância de andar. Era, afinal, o rito de cortejar. Sem carros, sem celulares, sem jeans.

Matinée nos Cines Real e Imperia: dois filmes e um episódio de seriado completavam o domingo, deixando para a semana o sonho de ver novamente aquela garota, conquistá-la e ir com ela ao cinema.

Às vezes um sarau dançante, uma quermesse na escola ou uma festinha de 15 anos na casa de alguma moça.

A praça também tinha algum movimento nas quartas e sábados à tarde, com menor concentração, mas com grande expectativa de encontrar a amada passando por ali.

Esse era o ambiente. Os rapazes, como eu nos meus 17 anos, tentando livrar-se da cara espinhenta da adolescência, querendo parecer adultos, confiantes e charmosos, mas com aquela insegurança que de qualquer forma se tenta disfarçar.

Foi então que ?ele? apareceu. Filho de uma família que migrou para a cidade, bem que poderia ter ficado de onde veio.

Apareceu ?o cara?. Não tinha defeitos, o ?cara? era muito bonito: moreno ao ponto, olhos verdes, altura correta e o cabelo, ah o cabelo! Ele ajeitava o cabelo preto e liso jogando a cabeça para trás, o que eu jamais poderia fazer com meus encaracolados de anjinho barroco.

Depois que ele apareceu a moçada não foi mais a mesma. Todas as moças apaixonaram-se e os rapazes viram nele tudo aquilo que gostariam ser. Inveja, muita inveja. Por que Deus não repartiu melhor a beleza?

As ?nossas? moças já não eram mais nossas. Namoravam conosco burocraticamente pois seus íntimos estavam com ele. Poderia até ser que não, que nossos valores morais e intelectuais realmente as encantassem, mas pensávamos que todas, na verdade, namoravam ?o cara?. Éramos coadjuvantes necessários. Ele era convidado para todas as festas de 15 anos, todas: fosse amiga ou não, todas o convidavam

Ele era tão bonito que de alguma boca invejosa veio o apelido que apagou seu nome para sempre na cidade e nas nossas memórias: Marta Rocha. Sim, ele era bonito como a Marta Rocha, aquela baiana Miss Brasil e quase Miss Universo dos anos 50. Era a mulher mais linda que a revista O Cruzeiro tinha apresentado em suas páginas.

E ele passou a ser chamado de Marta Rocha, depois Marta. Além de bonito, o Marta era simpático, ficamos amigos e, como se isso fosse necessário, até ia na praça nos domingos depois da missa das 10.

Durante uns poucos anos tive o Marta como amigo de praça e algumas festinhas que fui porque o Marta foi e, como embaixador das moças, ele convidava alguns coadjuvantes.

O tempo passou, fui embora da cidade estudar e mudei para bem longe. Não soube mais do Marta até um dia, anos depois, quando visitei a cidade e soube que ele vivia numa cidade próxima, estava gordo, desleixado e com apenas meia dúzia de fios de cabelo restantes. Descontando o exagero do amigo que me contou com indisfarçável satisfação, pois também havia sido vítima da beleza do Marta na adolescência, ?o cara? estava feio.

Não posso esconder que também fui tomado de um sentimento mesquinho, rindo por dentro, ao lembrar que, mesmo branquinhos, quase todos os meus fios de cabelos ainda estavam comigo e, por incrível que pareça, já não tão encaracolados.

O que fez a vida com o Marta ou o que fez o Marta com a sua vida nesses 30 anos?

Será que ele fez com sua beleza o que fazem os filhos de pais muito ricos que acham que o dinheiro nunca vai acabar e quando acaba ficam prostrados por que receberam tudo no berço e não aprenderam como ganhar?

Será que o Marta se abateu quando viu os primeiros fios de cabelo caírem ou as primeiras gordurinhas teimosamente exigirem um furo a mais no cinto?

Sinceramente prefiro achar que a vida tenha sido, de alguma forma, cruel com o Marta a pensar que ele não soube envelhecer com dignidade.

Nota: ?A? Marta Rocha soube envelhecer com dignidade. Continua linda, como vi no seu WebSite