De cada 200 mil brasileiros, nove cometem suicídio. Essa é a média nacional registrada em 2004, último ano em que o Ministério da Saúde (MS) divulgou um relatório sobre o tema. Foram registradas 7.987 mortes por suicídio no País. Se a média está abaixo do índice considerado preocupante pela Organização Mundial de Saúde (OMS), algumas particularidades desse levantamento despertaram a atenção das autoridades nacionais.

No resultado da pesquisa com os registros de suicídios entre 1994 e 2004, soaram como alarmantes o crescimento de 3,4 para 4,5 mortes por 100 mil habitantes no período, além dos 25 suicídios por 100 mil habitantes registrados entre a população com mais de 60 anos. No mesmo período, a taxa de suicídio dos índios foi de 98 por 100 mil.

Considerando que o número de suicídios freqüentemente é subestimado, por razões como estigmas, fatores políticos e sociais e regulações de agências seguradoras, o que significa que alguns suicídios podem ser registrados como acidentes ou mortes por causa indeterminada, a OMS calcula que o suicídio não é registrado numa taxa de 20%-25% no idoso e de 6%-12% em outras faixas etárias. Outra estimativa da OMS é que somente cerca de 25% dos que tentam o suicídio sem o consumarem buscam atenção médica. Assim, a maioria das tentativas de suicídio permanece não relatada e não registrada. Por esses motivos, o suicídio já é tratado como um grave problema de saúde pública.

Entre os estados, o Rio Grande do Sul é o que tem a maior taxa, 9,88 para 100 mil. O Paraná aparece na sexta posição deste ranking, mas Curitiba é a terceira capital em que mais ocorreram suicídios de mulheres em 2004. Segundo o MS, 3,3 de cada 100 mil mulheres curitibanas tiraram a própria vida. Média inferior apenas às de Teresina (4,2) e Cuiabá (3,8).

Os estudos também mostraram que as mulheres tentam o suicídio quatro vezes mais que os homens, mas os homens o cometem (morrem devido à tentativa) três vezes mais. Isso se explica pelo fato de os homens utilizarem métodos mais agressivos e potencialmente letais nas tentativas, tais como armas de fogo ou enforcamento, ao passo que as mulheres tentam suicídio com métodos menos agressivos e assim com maior chance de serem ineficazes, como tomar remédios ou venenos.

Os dados do primeiro grande estudo sobre o suicídio, divulgado pelo Ministério da Saúde, contribuíram decisivamente para que o Brasil se tornasse o primeiro país da América Latina a ter uma proposta de ação nacional voltada à prevenção do suicídio. Um projeto lançado em agosto do ano passado vai atender os familiares e amigos de pessoas suicidas, com o objetivo de reduzir o impacto e ajudar a superar o trauma. A ação atende a mais um dado levantado pela OMS e o MS, que constataram que mortes provocadas pela própria vítima interferem na saúde mental, emocional e profissional de cinco a dez pessoas mais próximas.

Suicidas dão sinal do que vão fazer

As pessoas podem tentar ou cometer suicídio por diversos motivos. Os mais comuns são uma tentativa de se livrarem de uma situação de extrema aflição, para a qual acham que não há solução; por estarem num estado psicótico; por se acharem perseguidas, sem alternativa de fuga; por se sentirem deprimidas, acharem que a vida não vale a pena; por terem uma doença física incurável e se acharem desesperançadas com sua situação; ou por serem portadoras de um transtorno de personalidade e atentarem contra a vida num impulso de raiva ou para chamar a atenção.

?A ciência tem certeza que existem componentes biológicos na gênese do suicídio e da tentativa de suicídio. Pesquisas como a neuroquímica cerebral já constataram algum distúrbio nessas pessoas com essa tendência. Dívidas, situação de trabalho, doenças, desespero, isso serve como o estopim para que se cometa o ato?, comentou o psiquiatra Dagoberto Hungria, que revelou que praticamente todos os suicidas dão algum sinal de que vão cometer o ato antes de consumá-lo. ?Falar mal da vida, dizer que preferia morrer, essas lamentações que não são muito levadas a sério podem ser um sinal de que a pessoa está considerando a hipótese do suicídio, principalmente entre os idosos?, comentou. Tentativa anterior ou fantasias de suicídio, disponibilidade de meios para o suicídio, preparação de um testamento, luto pela perda de alguém próximo e história de suicídio na família são outros indicadores de risco.

Para o psiquiatra, a atenção das famílias e dos médicos a esses sinais pode evitar muitos casos. ?Geralmente, essas pessoas passam por um médico antes, por apresentarem um quadro de depressão. O problema é que muitos médicos, por medo de acabarem ?incentivando?, preferem não conversar sobre se seu paciente já pensou em suicídio. E essa conversa pode salvar a vida da pessoa?, comentou.

Quando a preocupação a respeito de um risco de suicídio ocorrer em relação a uma pessoa, ela deve ser encaminhada a uma avaliação psiquiátrica, em emergências de hospitais que trabalhem com psiquiatria, para que se possa avaliar adequadamente o risco e oferecer um tratamento para essa pessoa.

Esse tratamento poderá ser uma internação, quando for avaliado que o risco é muito grave, ou tratamento ambulatorial (consultas regulares com psiquiatra), ocasião em que é feita uma avaliação das circunstâncias da vida da pessoa, observando-a e fornecendo-lhe suporte. (RP)

Informações ainda são imprecisas

Na opinião de Dagoberto Hungria, ainda não se pôde fazer um estudo aprofundado sobre o suicídio, suas causas e conseqüências, porque as informações que se têm ainda são muito imprecisas. ?Ainda há muito preconceito, famílias que escondem os casos por medo da reação das pessoas, gente com medo dos mitos da igreja, de que não se pode enterrar um suicida e que tal pessoa estaria condenada ao inferno, mas esse preconceito vem diminuindo?, disse.

E uma grande contribuição para a queda desse tabu de se falar em suicídio veio da Igreja Católica, que reviu suas posições acerca do suicídio e, ao invés de condenar o ato, tem buscado compreender e acolher as famílias. ?Por um grande período o suicídio foi um mistério para a ciência e para a religião. E havia mesmo esse grande preconceito, nem se podia rezar missa pela alma da pessoa?, reconheceu o padre Ricardo Hoepers, da Paróquia São Francisco de Paula. ?Mas agora compreendemos o suicídio como um fenômeno humano, a última instância do desespero de uma pessoa, e cabe à igreja ser acolhedora e apoiadora das pessoas que sofrem isso em suas famílias?, disse. ?Só Deus é quem pode dar e tirar a vida. É ele que tem de julgar e não nós aqui na terra?, acrescentou.

Para o padre, o mais importante é o trabalho de prevenção. ?E, num momento de total desespero, temos que lembrar que ainda podemos contar com Deus. Sempre há uma saída. Não se deve desistir da vida, porque ela vale a pena?, disse, lembrando que a Arquidiocese de Curitiba, por exemplo, oferece ajuda em pastorais como a da Acolhida, do Aconselhamento, ou da Sobriedade, entre outras.

Além da ajuda da igreja, um grupo de 48 voluntários vem trabalhando para tentar conter a idéia de suicídio das pessoas. É o Centro de Valorização da Vida, que, através do telefone 141 tem atendido cerca de mil ligações por mês de pessoas em situação de desespero devido aos mais diversos problemas.

?Funcionamos como um pronto-socorro emocional momentâneo. Não fazemos terapia, somos preparados para ouvir e aceitar, sem discriminar?, disse o coordenador do grupo, Quintino Dargostin.

Ele revelou que os motivos que levam as pessoas a situações extremas são os mais diversos e variam de acordo com o calendário. ?A época em que mais trabalhamos é no final do ano. Muitas pessoas solitárias, que não têm com quem passar as festas e gente inconformada com as extravagâncias das comemorações são as que mais nos procuram. Além de problemas na escola, no trabalho, com dívidas e com a família?, destacou, lembrando que grandes catástrofes, crimes hediondos e histórias trágicas amplamente divulgadas também reforçam o descontentamento dessas pessoas com a vida. (RP)