Foto: Ciciro Back/O Estado

M.C. tinha medo até de olhar para o carro. Hoje dirige para qualquer lugar sem dificuldades.

M.C, 48 anos, comprou um carro, mas o veículo ficou durante seis meses parado na garagem. Só de pensar no veículo, ela não dormia direito, passava mal, tinha palpitações e suor excessivo. Durante todo esse tempo enfrentou ônibus lotado, frio e chuva em pontos de ônibus junto com o filho. Só depois de muito sofrimento, descobriu que tinha fobia de dirigir. Segundo a psicóloga do Centro de Psicologia em Medos, Neuza Corassa, esse tipo de fobia é um dos mais comuns na população e acomete muitas pessoas.

Neuza explica que sentir medo é uma emoção natural e saudável. Segundo ela, ?é o medo que nos protege, nos faz refletir diante das situações de perigo, tomando a decisão mais acertada. No entanto, quando ele torna-se excessivo, fora de controle, passa a ser chamado de fobia?. A pessoa começa a se sentir mal só de pensar no contato com o objeto ou determinada situação que causa ansiedade em um grau elevadíssimo. Existem os mais variados tipos de fobia, desde medo de animais, como barata, até de dentista, injeção, tempestade, entre outros.

Os três mais comuns são: o medo de dirigir, seguido de falar em público e de andar de avião. A vida de quem sofre com a fobia fica toda atrapalhada, o paciente começa a programar o dia-a-dia em função das limitações que está experimentando. Para quem tem medo de sapo, ir para Bonito, no Mato Grosso do Sul, pode ser uma tortura. Uma promoção no trabalho não é aproveitada porque a pessoa tem medo de falar em público. Algumas pessoas nem sabem o tipo sangüíneo com medo da agulha. Outros perdem cursos no exterior por não suportar andar de avião. Além de comprometer o trabalho e a vida social, o medo atrapalha a vida familiar. Alguns parentes chegam a chamar a fobia de frescura e,s ao invés de apoiar, ajudam a aumentar o problema.

Além dos sintomas físicos, a fobia também afeta o psicológico. O medo mina a auto-estima, a pessoa se sente inferiorizada e a vida é cercada de sofrimento. Os cientistas ainda não sabem o que causa o medo exagerado. Mas existem algumas pistas. As pessoas que são acometidas pelo problema possuem um perfil parecido. São inteligentes, responsáveis, sensatas, humanas, mas têm um grau de exigência individual muito acentuado, querem ter sempre o controle da situação e não suportam críticas.

Dependendo do grau em que a fobia se manifesta, o paciente consegue resolver o problema sozinho. Para isso, basta seguir alguns passos, que podem ser enumerados em um plano de ação. O medo vai sendo vencido por etapas. Primeiro é necessário trabalhar com a respiração e fazer alguma atividade física para relaxar os músculos. Depois, aos poucos, começa o contato com o objeto ou situação que provoca a fobia. No caso de um sapo, por exemplo, primeiro se vê a fotografia em um livro, depois pega na mão um feito de plástico e assim sucessivamente. ?No começo é como se fosse real. A situação causa muito sofrimento?, explica a psicóloga. Mas quem acha que não vai conseguir vencer o medo sozinho, pode procurar ajuda de um psicólogo.

Tratamento psicológico busca a causa do problema

M. C. sofreu muito antes de conseguiu vencer o problema. Depois de tirar a carteira de habilitação e ter o carro na garagem, descobriu que não conseguia dirigir. ?Tinha medo até de olhar para o carro, parecia que tinha vida própria. Quando entrava nele sentia que o meu coração ia sair pela boca. Para mim era um fantasma. Nem dormia direito, sabendo que ele estava na garagem?, conta.

Depois de voltar para a auto-escola alguma vezes, M.C. ouviu a professora dizer que não ia mais dar aula para ela, era para procurar ajuda psicológica, porque dirigir ela sabia. M.C. sentiu vergonha e raiva de si mesma. A família também não ajudou muito. Para eles, faltava força de vontade para resolver o problema. ?A gente não quer ouvir a frase: tem que criar coragem duma vez. Quer que as pessoas conversem, perguntem quais as dificuldades, o que se está sentindo?, diz M.C.

Só depois de sofrer muito, ela resolveu procurar tratamento no Centro de Psicologia Especializada em Medos e, com ajuda da psicóloga Neuza Corassa, tentou descobrir as causas do problema. Lembrou que quando o filho nasceu, sofreu um acidente grave e quase perdeu a criança. M.C acha que pode ter relação com o medo que sentia. M.C., aprendeu a controlar a respiração, começou a fazer exercícios físicos e seguiu um plano para ir se reaproximando do carro. ?Hoje o fantasma foi embora e dirijo para qualquer lugar?, comenta.

A professora V.C., 43 anos, soube que tinha o problema há pouco tempo. Ela sabia que não gostava de dirigir, mas não tinha idéia de que estava com fobia. Só descobriu quando entrou no carro do irmão e sentou no banco do motorista para fechar as janelas. Como os vidros eram elétricos, tinha que virar a chave. Começou a passar mal, tremer e sentir falta de ar. Foi também aí que a família percebeu que V.C. não tinha má vontade para dirigir, mas não estava bem psicologicamente.

V.C. conta que teve um problema sério quando vendeu um carro para terceiros. Ela não transferiu o nome e várias multas foram parar na sua carteira de habilitação. ?Sempre fui muito responsável. Aquela situação me agoniava. Sonhava que ia ser presa porque outro motorista tinha atropelado uma pessoa?, conta. Depois disso, é que os sintomas da fobia surgiram. Até então, ela andava normalmente de carro. V.C. quer voltar a dirigir e faz planos. Vai comprar um carro para vencer o medo. ?Vou tentar sozinha. Se não der certo, vou procurar ajuda?, fala. (EW)

Não há estudo científico que comprove origem da fobia

Segundo o psiquiatra André Astete, a fobia é um tipo de transtorno ansioso. Quando o cérebro detecta algum perigo, aciona um alarme e a pessoa presta mais atenção ao risco e na melhor resposta a ser dada. Mas sempre que a ansiedade não tiver cumprindo bem o seu papel e, ao invés disso, causar prejuízos, ela passa a ser uma patologia.

Ainda não existe um estudo científico que tenha conseguido comprovar as causas da fobia. Algumas teorias afirmam que elas estão relacionadas à expectativa de sentir dor ou repugnância. Por exemplo, quando o paciente vê ou pensa em determinado animal, existe uma disfunção no cérebro na hora de sentir repugnância. Isso acontece porque a pessoa aprendeu a usar o mecanismo de forma inadequada e hiperdimensionada, devido às experiências pessoais, como ver a mãe tendo uma reação exagerada ao ver uma barata, e também por causa da sua memória genética. Ao longo do tempo, o homem foi aprendendo a ter repugnância a certos animais para garantir a sua sobrevivência.

Crise do pânico

A crise do pânico também é um tipo de transtorno ansioso, mas diferente da fobia. Enquanto a fobia precisa de um objeto ou situação para desencadear a crise, o ataque de pânico pode ocorrer sem nenhuma motivação. A pessoa tem um forte mal-estar físico, formigamento, tremor, falta de ar, palpitações e acha que vai morrer. A situação pode se repetir várias vezes no mês, na semana ou por dia. Geralmente a pessoa vai parar em um pronto-socorro e lá o problema é diagnosticado.

Também ainda não existe nenhuma explicação para o problema. Uma teoria aponta a sensibilidade exagerada ao gás carbônico. Quando os níveis no ar estão um pouco acima do normal, o cérebro lança um alarme falso de sufocamento e o paciente começa a passar mal.

A crise do pânico, reconhecida como doença pela Associação Americana de Psiquiatria e pela Organização Mundial da Saúde na década de 1980, também traz uma série de transtornos para a vida das pessoas. Com freqüência, os pacientes desenvolvem a agorafobia, que é a insegurança crônica sobre a possibilidade de ter algum ataque. Com ela vem a depressão – o paciente deixa de sair de casa, além de evitar lugares fechados como ônibus e elevador. Para cada duas mulheres, um homem apresenta o problema. A idade varia de 17 a 25 anos, raramente aparece em crianças. O tratamento é feito com antidepressivos. (EW)