| Foto: Fábio Alexandre/O Estado |
| A maquiadora Lilian Marchiori consegue com o auxílio de pincéis, pós, corretivos e sombras, mudar a cara das pessoas, inclusive a sua. continua após a publicidade |
No dicionário, a palavra maquiagem tem como sinônimo disfarce. Porém a ela deveria ser somado outro verbete: transformação. Talvez esta seja a maior qualidade da maquiagem, popularizada ao longo dos séculos. Não é à toa que pipocam em emissoras de televisão e revistas produções que mostram as pessoas antes e depois da intervenção de um maquiador.
Usada como artifício em várias áreas, a maquiagem pode estar no dia-a-dia das pessoas. Com materiais básicos, como um corretivo, uma boa base, sombras escuras e um rímel, é possível dar um ar mais uniforme e saudável às expressões faciais.
Segundo a atriz Lilian Marchiori, que se dedica à arte da maquiagem, a técnica tem inclusive o poder de corrigir pequenas imperfeições. "Com o jogo do claro e escuro, tudo é possível", diz. Por isso, muitas vezes, quando nos deparamos ao vivo com ícones da mídia de cara limpa, nos surpreendemos ao ver que eles são "gente como a gente". Na internet, é corriqueiro circular e-mails com musas hollywoodianas sem o artifício da maquiagem, mostrando tudo aquilo que a maquiagem pode disfarçar. "Ela pode apenas disfarçar, mas tem um poder ainda maior de transformar", diz Lilian.
Utilidades
A maquiagem tem diferentes utilidades. Na publicidade, no cinema ou no teatro ela serve para dar uma nova cara às pessoas, adequando-as a cada situação. Lilian, que trabalha numa agência de modelos e atores, consegue com o auxílio de pincéis, pós, corretivos e sombras, mudar a cara das pessoas.
Na área da publicidade, o trabalho geralmente consiste em deixar a pessoa mais bela, ressaltando as características que mais chamam a atenção no rosto. "Usamos a maquiagem para deixar o rosto o mais simétrico possível, corrigindo possíveis imperfeições. Dependendo do produto que se vende, a pessoa tem que ficar o mais perfeita possível", diz. Porém, nem sempre é assim, já que muitas vezes as personagens usadas para vender um produto têm que se identificar com o público comum. "O grande lance é respeitar a intenção do cliente."
No cinema, a intenção é sempre deixar a pessoa o mais próximo da realidade, o que na linguagem das películas é chamado real life. "No cinema, menos é mais. A pele tem que parecer o mais natural possível, respeitando cada personagem."
Teatro
Porém quando o assunto é teatro, tudo depende das opções estéticas do espetáculo a ser encenado. Por isso, é muito importante que o maquiador atue junto com a produção do espetáculo. Lilian assina a caracterização de várias montagens e diz que nesse trabalho é fundamental o acompanhamento da concepção. "É importante o acompanhamento em ensaios para extrair a essência de cada personagem. A maquiagem entra como parte da composição deles", explica. Como existem vários signos dentro da semiologia teatral, a maquiagem auxilia no repasse de informações importantes para a compreensão da essência da personagem. "E nada precisa ser, necessariamente, óbvio. Em uma peça que fale de velhice, não é obrigatório encher os atores e atrizes de rugas."
No caso dos mímicos, cuja expressão facial é o instrumento principal de trabalho, é obrigatório ressaltar a boca e os olhos, já que a movimentação destes é que passa a informação. "Por isso eles costumam maquiar o rosto de branco e ressaltar a boca e os olhos com maquiagem forte", diz Lilian.
Outro uso comum da maquiagem é em funerárias, mesmo que as pessoas que se dedicam a essa área sintam-se pouco à vontade para falar sobre o assunto. Para dar um ar de tranqüilidade ao falecido, a maquiagem é feita deixando o rosto o mais natural possível. No momento do nascimento, a maquiagem também vem se tornando comum. É grande a lista de maternidades que oferecem um verdadeiro staff para as mamães. O intuito é deixá-las lindas para receber as primeiras visitas depois da chegada do bebê.
Uma mulher de várias faces
Cleópatra: a primeira referência
A despeito da explosão da indústria dos cosméticos no século passado, incentivada pelo culto ao belo, a maquiagem é muito antiga. A primeira referência que se tem é egípcia, trazida por uma das mulheres mais poderosas da história: Cleópatra. Com a pele branquíssima, referência de casta social, e olhos marcados com kohl, ela foi a precursora da sensualidade e do poder do artifício. Os olhos marcados também eram usados pelos homens, que no sentido contrário tinham que ter a pele escura.
No Egito, a maquiagem concedia status de poder, mas isso sempre foi variável de uma cultura para outra. "Na Índia, os povos azuis da antigüidade marcaram a história. Eles usavam uma tintura em todo o corpo", diz a maquiadora Lilian Marchiori. Hoje, além da maquiagem do rosto, as indianas maquiam o corpo com henna. "Quando casam, elas passam dias recebendo os desenhos nas mãos e nos pés." Na cultura árabe, para compensar o uso dos véus que cobrem praticamente todo o rosto, as mulheres costumam marcar bem os olhos. "É a parte do rosto que aparece, então elas usam muito delineador", diz Lilian. Não é à toa que a região possui um dos mais representativos mercados consumidores de maquiagem, onde empresas internacionais como Lancôme, Shiseido e até mesmo a brasileira O Boticário implantaram lojas e só vêem os lucros aumentarem.
Os indígenas brasileiros usam até hoje misturas de urucum e outras plantas que permitem o tingimento conforme cada ocasião. Há, por exemplo, a maquiagem de guerra, de casamento, entre outras. No caminho da história, os nobres da corte francesa – tanto homens quanto mulheres – enchiam a pele de pó para deixá-la tal qual porcelana, o que remetia à nobreza da casta social.
Companheira inseparável das drag queens
| Fábio Alexandre/O Estado |
| Sérgio Pereira leva uma hora para se transformar em Bárbara Bout. |
Quando se fala no poder da transformação da maquiagem, não há como não se remeter a imagem das drag queens. Popularizadas nos anos 90s com o filme Priscila, a rainha do deserto, as drags hoje são figuras comuns em festas de aniversário e empresas, despedidas de solteiro e até mesmo nos tradicionais chás de panela. O intuito é alegrar o ambiente com os rapazes montados como verdadeiras "divas purpurinadas".
Por meio da maquiagem, em aproximadamente uma hora, nasce uma estrela. Pelo menos é o tempo que Sérgio Pereira leva para se transformar na luxuosa Bárbara Bout. O nome foi escolhido como referência ao adjetivo bárbaro. "Alguém bárbaro, na minha concepção, é alguém fora do comum, excepcional", diz. O sobrenome veio de um filme assistido por ele, no qual a personagem era uma mulher cheia de vida e garra.
A personagem surgiu há oito anos, quando Sérgio pela primeira vez apelou para a maquiagem para se transformar. "Foi para uma festa. Gostei tanto do resultado que acabei criando a personagem e fazendo dela minha profissão."
Quando se transforma, ele confessa que realmente se sente outra pessoa. Não é simplesmente Sérgio debaixo da maquiagem. É outra pessoa: Bárbara. De fato, quando se conversa com Sérgio, percebe-se em seu tom de voz tranqüilo, e gestos comedidos, toda a timidez de sua essência sem estar na pele da personagem. "É uma outra pessoa que se revela com a maquiagem, com uma perrsonalidade bem diferente da minha. Bárbara é extrovertida, alegre, falante. Bem diferente de mim", diz.
O prazer que sente em se transformar, o que soma à maquiagem perucas de várias tonalidades, acessórios que remetem ao luxo e roupas ao melhor estilo femme fatale, geralmente arrematadas com um belo boá (pluma), só não é completo pelo preconceito que ainda cerca a atividade. "Ainda há muito preconceito", conclui.