Interessante o quadro sobre os falsos videntes apresentado no Fantástico nos últimos domingos. Primeiro, uma demonstração real da fraude experimental e depois, as técnicas utilizadas para ludibriar pessoas de boa-fé. Alguns esclarecimentos sobre o assunto podem ser úteis.

Sabermos, por exemplo, que vidência é uma faculdade espiritual presente em muitas pessoas independente de crença. Como qualquer outra aptidão mediúnica, é inerente ao ser humano, mesmo que, às vezes, só potencialmente. Nem todo vidente é espírita. Antes pelo contrário. A recíproca também se aplica: nem todo espírita é médium, quanto mais vidente. Acertadamente os responsáveis pelo programa televisivo, em momento algum, puseram em dúvida a possibilidade real do fenômeno.

Apenas procuraram alertar para os embustes tão comuns entre o povo brasileiro, marcadamente crédulo e místico. Allan Kardec afirmava que pelo fato de existirem vinhos adulterados hoje o uísque ou marcas de tênis-, não significa impossibilidade de existir os legítimos. Da mesma forma se um fenômeno dito paranormal pode ser simulado, nem por isso, sob pena de julgamento injusto decorrente de pobreza intelectual, preconceito ou má-fé, podemos inferir não possa ocorrer efetivamente.

Outro aspecto importante diz respeito à faculdade em si. De ordinário, não só conforme o apresentado na simulação pelo ator, mas o que se vê em nossas cidades, trata-se de puro exercício adivinhatório obtido a partir de perspicazes especulações da vida da pessoa ou, quando presente alguma capacidade especial, temos faculdades outras como a telepatia, intuição, pressentimento, precognição, não, porém, vidência propriamente dita.

Esta, como a denominação indica, implica na observação de imagens visuais de pessoas vivas ou não, objetos, lugares. Na cartomancia, na quiromancia ou no uso de bolas de vidro, aliás, práticas totalmente alheias ao espiritismo, tais objetos ou a palma da mão servem somente para estabelecer um vínculo do sensitivo à mente, à aura ou eventualmente a registros mais profundos da psiquê do consulente. De lá poderá recolher informações mais ou menos corretas relativas ao presente, passado e até sobre o futuro.

E mais. Há duas classes de fenômenos: a vidência, mediúnica e a clarividência, anímica. Na primeira o indivíduo ?vê? tanto de olhos abertos como fechados. Já a clarividência, para a qual Kardec preferia usar o termo dupla ou segunda vista, serve-se dos canais utilizados pela visão física. Assim, um cego pode ser médium vidente mas não clarividente.

Habitualmente distinguimos um fenômeno mediúnico do anímico pelo fato da mensagem (na forma de pensamento, imagem, cores, sons) ser transmitida por um espírito desencarnado. No fenômeno anímico, é a própria alma do sensitivo que empreende a busca da informação desejada. Ele por si só é capaz de ver ou ouvir no local ou à distância. Desempenha um papel mais independente, embora muitas vezes, até de modo involuntário. As coisas acontecem em momentos inesperados ou lugares impróprios, sem que possa exercer o controle sobre a ocorrência.

Esta divisão no espaço também é válida para as vidências de caráter mediúnico, como explicitamos. Em estado sonambúlico, a alma do médium desliga-se parcialmente do corpo físico e é conduzida por espíritos operadores do plano invisível para lugares distantes para testemunhar cenas que guardem relação e importância com sua vida, de terceiros ou apenas como aprendizado sobre a dinâmica na outra dimensão.

Isto é muito comum durante o sono, fato atestado em narrativas de romances psicografados, em experiências de laboratório (para quem assistiu, lembramos do Globo Repórter do dia 12 último) e também segundo O Livro dos médiuns. No item 100 encontramos a seguinte pergunta e respectiva resposta: ?Os Espíritos podem se tornar visíveis? Sim, sobretudo durante o sono?. São algumas destas vivências que misturadas a reflexos físicos e psicológicos, constituem nossos sonhos.

Por falar no Livro dos médiuns, o mais completo tratado sobre os fenômenos paranormais, no item 167 encontramos a informação de que alguns médiuns videntes gozam desta faculdade também no estado de vigília. E no seguinte, que, em geral, estas visões são acidentais e espontâneas. Aliás, a faculdade de vidência raramente é permanente.

Ambas, vidência e clarividência, variam também no tempo. São as retrocognições e premonições colhidas na forma de imagens. Esta intrigante capacidade de sondar o futuro, incluindo as profecias, constitui capítulo interessantíssimo com o qual, infelizmente, não podemos nos ocupar agora.

Na prática espírita a vidência possui pouco valor, representando apenas um meio auxiliar nas reuniões de atendimento a espíritos sofredores onde pode ratificar ou complementar impressões passadas por outros meios como a psicofonia ou a psicografia. Em casos excepcionais, podem se tornar muito significativas como as de Joana D? Arc ou as das três crianças de Fátima (Portugal). Outra aplicação importante é em alguns trabalhos de cura como instrumento de apoio ao diagnóstico. Andrew Jackson Davies (1826-1910), considerado um dos precursores do Espiritismo, tornou-se famoso pelas curas que fazia a partir de visões internas que tinha dos pacientes. O mesmo se deu com Edgard Cayce cujas curas atingiram grande notoriedade.

A clarividência também se faz presente associada à faculdade de psicometria em que o sensitivo, ao contato com determinado objeto, um relógio, por exemplo, passa a ter visões relacionadas com o seu proprietário. Nas regressões de memória, o paciente é conduzido pelo terapeuta a épocas da atual ou pretéritas existências e lá, tanto pode somente descrevê-las como um espectador como também vivenciar novamente todos os fatos e suas correspondentes cargas emotivas.

Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná e-mail: adepr@adepr.com.br