Rosane Torquato

É assombroso observar a necessidade que os seres vivos têm de constantes relações para a própria sobrevivência. O ciclo da vida, em qualquer espécie, não se realiza sozinho, mas num ambiente diverso e múltiplo de inúmeras ligações. Mesmo quando temos necessidade de permanecer sozinhos, não o fazemos por muito tempo. Certa vez, quando jantava em um restaurante na companhia de meu marido, começamos a observar, naturalmente, a chegada de outros casais. É interessante observar os critérios que levantamos na escolha da mesa a fim de que melhor nos sintamos: perto ou não da janela? Perto ou não daquele outro casal? Perto ou não do banheiro? Dependendo de nossas necessidades, no momento, a escolha será a de ficarmos ?sozinhos?, mas não tão longe dos outros, pois, se assim o quiséssemos não estaríamos num restaurante…

Nossa existência é sublime! Somos seres formados para viver em comunidade. Só posso ser eu quando reconheço o outro diferente e igual. Ou seja, diferente enquanto ser singular, afinal de contas, só existe um eu; igual porque, assim como você, eu sou um ser vivo, social, afetivo, espiritual, humano. Desta forma, minha identidade não se constrói de forma estática e isolada, mas de forma relacional.

Quando chegamos a este mundo descobrimos que ele já possuía um próprio modo de ser, uma linguagem (própria, ampla e muito complexa) e outros (diferentes e iguais…) com quem eu deveria aprender a conviver. Em meio a sua grande riqueza, a linguagem abre caminho para a expressão daquilo que penso, tornando a comunicação um espaço de constantes e variadas ações e até mesmo transformações. Entretanto, só posso me comunicar efetivamente quando vou assimilando – com a ajuda e orientação dos outros (família, escola, amigos, trabalho…) – os códigos já existentes. Somos seres carentes de diálogo! A comunicação efetiva é aquela que se apresenta como um espaço comum onde eu e você podemos falar. É nesse espaço de trocas (mesmo aquelas que a primeira vista resistimos) que nos descobrimos e descobrimos o outro (o diferente e igual, lembra?). É lamentável que, muitas vezes, as manifestações da linguagem não traduzam o bem-estar comum. Isto ocorre quando o espaço da comunicação torna-se unilateral. Um só fala. O outro só ouve. O que deveria, como decorrência dos últimos avanços tecnológicos, estar nos aproximando, parece nos separar cada vez mais. O ser humano necessita do outro, mas se auto-expulsa da comunhão e conseqüentemente, arrisco a dizer, deixa também de crescer e evoluir no encontro consigo mesmo. Por outro lado, há diferentes vozes que continuam a ecoar a semelhança de profetas que apresentam o erro, mas apontam o caminho vozes daqueles que teimam em acreditar na existência e na co-existência como essência e atributos à vida em que os principais protagonistas ainda serão eu e você.