Para quem mora em Curitiba, onde a tolerância religiosa entre árabes e judeus é tamanha a ponto de sinagoga e mesquita dividirem a região central da cidade, é difícil compreender as imagens de destruição provocadas pelo conflito na Faixa de Gaza. Diante do desafio, o Paraná Online procurou o doutor em História pela Universidade Federal do Paraná Andrew Traumann para trazer as razões dos lados envolvidos em uma guerra cujas origens datam de 2 mil anos atrás.

A expulsão dos judeus da chamada “terra prometida” pelos romanos (113 d.C) marcou a Diáspora, na qual eles se espalharam pelo mundo. Séculos mais tarde, o holocausto reacendeu a importância de se criar um Estado judeu. “A quase exterminação do povo, com cerca de 6 milhões de judeus mortos, trouxe à tona a necessidade de um Estado judeu. Em um primeiro momento se cogitou países como Uganda e Argentina, só depois veio a corrente sionista de voltar à terra prometida. Só que esse território abrigava a Palestina”, resume Traumann.

Em 1918, quando a região passou do Império Turco Otomano para a Inglaterra, havia 600 mil árabes e 56 mil judeus. No final da 2.ª Guerra Mundial, com a criação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, já viviam lá 600 mil judeus. “Começou então uma espécie de Diáspora do povo palestino, que da noite para o dia se viu obrigado a deixar suas casas para ocupar campos de refugiados na Síria e na Jordânia”, explica Traumann.

A ação teve resposta com a 1ª Guerra Árabe-Israelense, em maio de 1948. De lá para cá, uma série de tentativas de paz foram registradas. “A Organização da Nações Unidas (ONU) tentou acabar com a tensão propondo que o território fosse dividido, com a criação de um Estado judeu e outro árabe, mas a verdade é que nenhum dos lados queria isso”, observa o pesquisador. “Muitos palestinos guardam a chave de casa até hoje, mas o fato é que há outra família morando lá, o que aumenta o ódio entre os refugiados, que a ONU estima em três milhões de palestinos”.

Ocupação

Mesmo com o Estado de Israel, colonos judeus estabeleceram assentamentos em Jerusalém Oriental, Colinas de Golan e Cisjordânia. A ONU considerou a ocupação ilegal, determinando a saída das regiões conquistadas. De 1968 até hoje, Israel já violou 32 resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Israel devolveu o controle da Faixa de Gaza aos palestinos em 2005. No ano seguinte, o grupo islâmico Hamas venceu as eleições legislativas.

Em abril de 2014, o Hamas concordou com um acordo de reconciliação com o opositor Fatah, que levou à formação de um governo de unidade nacional. Em junho, com o assassinato de três jovens israelenses, a tensão chegou ao seu ponto máximo e culminou no atual conflito na Faixa de Gaza, o terceiro desde que o Hamas assumiu o controle.

Tolerância

Quanto ao papel do Brasil no conflito e a definição controversa de “anão diplomático” por parte de um diplomata israelense, quando o governo chamou para consultas o seu embaixador em Tel Aviv, o especialista rebate. “O Brasil tem um grande papel como exemplo de tolerância religiosa, incluindo as comunidades judaicas e árabes aqui instaladas”, defende. Ele chama atenção ainda para a reverberação do conflito nas redes sociais. “Há um lado positivo de se ouvir as duas versões, mas precisamos cuidar para que a guerra entre os discursos não fomente a intolerância em nosso país”, alerta.

Trégua

O governo de Israel e o grupo de militantes palestinos Hamas aceitaram ontem um novo cessar-fogo de 72 horas proposto pelo governo do Egito. Um agente ,israelense confirmou que o governo concordava com a trégua para tentar acabar com o conflito que já dura mais de um mês. Oficiais palestinos também já disseram que aceitam a proposta egípcia.

Negociação

A trégua deveria começar às 2h de hoje (horário de Brasília). Em pronunciamento, autoridades egípcias afirmaram que o cessar-fogo seria acompanhado por negociações. Uma delegação israelense deve se dirigir ao Egito nos próximos três dias para negociar um cessar-fogo de longa duração.

Ataques

Israel retomou ontem os ataques aéreos contra a Faixa de Gaza, após um breve cessar-fogo, declarado unilateralmente, e da retirada de tropas israelenses de partes do território costeiro palestino.

Geoprocessamento – Un. Jornais

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