O Papa Francisco afirmou que tem “grandes esperanças” de que um acordo fundamental para combater as mudanças climáticas possa ser alcançado em Paris no final do ano e acredita que a Organização das Nações Unidas (ONU) precisa ter um papel central na luta contra o aquecimento global, de acordo com o The Guardian, jornal britânico.

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“A ONU realmente precisa tomar uma posição forte nesta questão, particularmente sobre o tráfico de pessoas…(um problema) que foi criado pelas mudanças climáticas”, disse o Papa.

Segundo o jornal britânico, os comentários foram feitos após um dia de reuniões com prefeitos de todo mundo, convidados pelo Vaticano para discutir os desafios ambientais e como as mudanças climáticas estão contribuindo para uma crise humanitária, com imigrações e trabalho escravo moderno. Entre os participantes estavam Bill de Blasio, prefeito de Nova York, George Ferguson, de Bristol, Gustavo Petro, de Bogotá e Fernando Haddad, prefeito de São Paulo.

A conferência iniciou com os testemunhos de duas mulheres mexicanas, vítimas do trabalho escravo.

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“Não é possível que ainda exista, que continuamos cegos” para a questão da escravidão moderna, disse Ana Laura Pérez Jaimes, que passou cinco anos presa e obrigada a trabalhar 20 horas por dia no México. Ela mostrou aos prefeitos fotografias das 600 cicatrizes que ganhou, forçada a fundir ferro por horas sem comida ou água. Ana Laura afirmou que tinha de urinar em um saco plástico.

Karla Jacinto, também mexicana, descreveu como foi abusada física e sexualmente por sua família, obrigada a se prostituir dos 12 aos 17 anos. Ela foi forçada a ter relações sexuais com mais de 42 mil homens antes de ser resgatada, disse.

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“Eu achava que eu não valia nada. Eu achava que eu era apenas um objeto para ser usado e jogado fora”, contou. Karla, agora com 22 anos e mãe de duas crianças, trabalha para o fim do tráfico de pessoas.

A reunião ocorreu um mês após a divulgação de uma Carta Encíclica do Papa Francisco – um tipo de estudo da Igreja – sobre o meio ambiente que pediu pelo fim do uso de combustíveis fósseis e para agir contra as mudanças climáticas e o consumo imoral, o que, segundo o Papa, coloca a humanidade em risco.

De acordo com o The Guardian, durante a reunião, o Papa declarou, no que parecia ser um discurso improvisado e não um texto preparado, que a Carta Encíclica era mais “social” do que “verde”, pois reflete uma “atitude da ecologia humana”.

“Nós não podemos separa o homem do seu entorno. Há um relacionamento que tem grande impacto, tanto na pessoa e na maneira como ela trata o meio ambiente quanto no efeito rebote contra o homem quando o meio ambiente é mal tratado”, disse.

Ainda, segundo o jornal britânico, o pontífice falou sobre “o crescimento desenfreado das cidades”, um fenômeno global que favorece a proliferação de “favelas e cortiços” na periferia das grandes metrópoles, pois não há oportunidades econômicas suficientes para sustentar as pessoas pobres nas áreas rurais. “Isso precisa ser denunciado”, disse Francisco.

Ele criticou o aumento do desemprego entre jovens – que em países como a Itália já chega a mais de 40% – e lamentou que o sofrimento dos jovens e pobres está levando à “vidas sem sentido”.

“Se projetamos isso para o futuro…que tipo de horizonte eles podem vislumbrar?”, perguntou. “Alguns entram para atividades de guerrilha, para encontrar algum sentido em suas vidas e também sua saúde fica em risco”, comentou.

O Papa Francisco também enfatizou a importância que os prefeitos têm em trazer estes debates para suas cidades, afirmando que as verdadeiras mudanças devem surgir da periferia para serem efetivas e não devem ser impostas de cima. (Gabriela Korman – gabriela.korman@estadao.com)